Eu não entrei naquele aplicativo procurando amor.
Entrei por curiosidade mesmo. Era 2018, época de eleição, todo mundo discutindo por tudo… e eu só queria distrair a cabeça depois de um dia cheio no salão.
Foi ali que eu vi o Felipe.
A gente começou com aquelas conversas bobas, meio irônicas… ele implicando comigo, eu devolvendo na mesma medida. No primeiro encontro, a gente marcou de tomar uma cerveja sem muita expectativa.
Mas não foi “só uma cerveja”.
A gente riu fácil. Conversou como se já se conhecesse há anos. E no mesmo dia… a gente foi além do que deveria.
Talvez ali já tivesse começado errado. Ou talvez tivesse começado intenso demais.
Depois disso, veio tudo junto.
Café nos intervalos do meu trabalho, ele aparecendo com novidades da marca que trabalhava, falando de campanhas, de publicidade… e eu ali, vivendo o dia a dia do salão, mas adorando ouvir aquilo. A gente se encontrava no meio das rotinas, e parecia que encaixava.
A gente gostava das mesmas coisas.
Filmes, música, marketing, ideias…
Era fácil. Era leve.
Até deixar de ser.
As conversas começaram a mudar de tom.
Opiniões viraram debates.
Debates viraram disputas.
Ele progressista.
Eu… completamente do outro lado. Autônoma, cabeça livre, sem acreditar nesse modelo engessado de vida.
No começo, era até interessante.
Depois, começou a cansar.
Porque não era mais sobre entender.
Era sobre vencer.
E ninguém vence quando o outro vira adversário.
Teve um dia que a gente discutiu por algo tão pequeno… que hoje eu nem lembro o que era. Mas lembro do silêncio depois.
Aquele silêncio que não é confortável.
É o tipo que já avisa que alguma coisa quebrou.
E a gente não brigou feio.
Não teve grito.
Não teve cena.
A gente só… parou.
Parou de mandar mensagem.
Parou de se procurar.
Parou de existir na vida um do outro.
Como se tudo aquilo tivesse sido só uma fase.
O tempo passou.
Mais do que eu gosto de admitir.
A vida seguiu… do jeito dela.
Eu segui também. Trabalho, rotina, novas histórias que nunca foram até o fim.
Mas algumas coisas ficam.
E ele… ficou.
Não na minha vida.
Mas em algum lugar silencioso, onde a gente finge que não olha — mas olha.
Até que, num dia comum… tudo saiu do lugar.
Eu saí do salão mais tarde do que o normal. Cansada, com aquele barulho de secador ainda na cabeça. O céu já estava estranho desde cedo, pesado… mas eu ignorei.
Até começar a chover.
E não foi uma chuvinha qualquer.
Foi daquelas que caem de uma vez, sem pedir licença, como se o dia resolvesse desabar junto.
Eu corri e parei na primeira marquise que encontrei.
E foi ali que eu vi.
Não de cara.
Não de filme.
Foi devagar.
Primeiro o sapato.
Depois a postura.
E quando ele levantou o rosto…
Era o Felipe.
O mundo não parou.
Ninguém em volta percebeu.
Mas alguma coisa ali… travou.
A gente ficou se olhando por alguns segundos que pareceram muito mais do que deveriam.
Sem sorriso automático.
Sem reação ensaiada.
Só reconhecimento.
— Julie? — ele falou, como se ainda estivesse confirmando.
E foi estranho… porque a voz dele era a mesma.
Mas não era.
Tinha menos pressa. Menos defesa.
A gente começou a conversar ali mesmo, enquanto a chuva fazia barulho demais pra qualquer silêncio confortável existir.
No começo, coisas simples.
Trabalho. Rotina. A vida.
Mas tinha alguma coisa diferente.
A gente não estava tentando se convencer de nada.
Não estava tentando ganhar.
E isso… mudou tudo.
Em algum momento, a conversa caiu no passado.
Natural. Sem peso.
— A gente brigava por tudo, né? — ele soltou, com um meio sorriso.
Eu ri… mas foi diferente de antes.
— A gente queria estar certo o tempo todo.
Ele assentiu.
E ali, pela primeira vez, eu não senti vontade de discordar.
A chuva começou a diminuir, mas nenhum dos dois saiu do lugar.
Como se, por algum motivo, ir embora fosse repetir exatamente o que a gente já tinha feito anos atrás.
E dessa vez… nenhum dos dois queria isso.
— Engraçado… — ele falou, olhando pra rua ainda molhada — …parecia tão importante naquela época.
Eu respirei fundo antes de responder.
— E hoje não parece mais.
Não era sobre concordar.
Era sobre finalmente entender que nunca deveria ter sido uma guerra.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Era leve.
Quase confortável.
E quando a chuva parou de vez, a cidade voltou ao normal.
Mas a gente não.
— Quer tomar um café? — ele perguntou, simples. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E talvez fosse.
Eu olhei pra
ele… dessa vez sem pressa, sem defesa, sem precisar provar nada.
Só senti.
E depois de tudo… eu disse:
— Quero.
(Essa história é inspirada em sentimentos reais. E talvez por isso… ainda faça tanto sentido.)

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