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A chuva finalmente parou aqui no Rio. Acordei com aquele céu cinza que dá preguiça, mas agora o sol tá querendo furar as nuvens. Amanhã cedo eu pego a estrada pra Arraial do Cabo com as meninas: pousadinha pé na areia, mergulho nas águas cristalinas, caipirinha gelada ao pôr do sol. Depois de tanto corre no consultório — atendendo paciente atrás de paciente, equilibrando dieta, treino, vida —, mereço isso. Imagina pegar uma viagem sonhada e chover o fim de semana inteiro? Não, obrigada. O universo tá conspirando a favor.
Tô aqui no quarto arrumando a mala. Playlist de MPB tocando baixo, cheiro de protetor solar no ar. Biquíni novo, saída de praia florida, chapéu de Noronha... Enquanto dobro as roupas, decidi dar uma geral no armário também. Aquela faxina que a gente adia anos. E foi aí que achei, no fundo da gaveta de cima, atrás de caixas velhas de sapato: uma carta. Amarelada, dobrada, escrita à mão. Pro Rodolfo.
Meu coração deu um pulo. Faz quanto tempo? Quatro, cinco anos? Eu nem lembrava que ainda guardava isso.
Sentei no chão, entre pilhas de roupa, e abri devagar. A letra era minha, mas mais jovem, mais desesperada. Comecei a ler ali mesmo:
"Rodolfo,
Por que você sumiu assim? A gente tinha tudo pra dar certo. Você dizia que eu era diferente, que adorava meu jeito de cuidar das pessoas, meu bronzeado depois da praia, meu cabelo preto voando no vento quando a gente saía de moto. Eu planejava viagens na cabeça: a gente em Arraial, mergulhando nas Prainhas do Pontal, eu te mostrando o caminho pras piscinas naturais... Mas você evaporou. Uma mensagem não respondida virou duas, virou silêncio. E eu fiquei aqui, me culpando. Será que eu cobrava demais? Será que eu era intensa?
Eu te esperei, viu? Esperei ligação, mensagem, qualquer coisa. Enquanto isso, continuei atendendo no consultório, sorrindo pras pacientes, falando de amor próprio, de nutrir o corpo e a alma... Mas por dentro eu tava morrendo de fome afetiva. Aceitava migalha de quem aparecia, só pra não ficar sozinha com meus pensamentos."
Enquanto lia, eu ria de nervoso. Porque agora, olhando pra trás, eu vejo claro: eu não tava apaixonada pelo Rodolfo. Eu tava apaixonada pela ideia de ser amada por alguém como eu imaginava que ele era. Atencioso, aventureiro, carinhoso... Qualidades que eu mesma tenho, mas não dava valor. Eu planejava as viagens com as amigas, eu cuidava delas quando tavam mal, eu era a que levava fruta cortada pro rolê, a que lembrava do protetor solar de todo mundo. Mas pra mim? Eu me deixava por último.
Terminei de ler e fiquei quieta. O sol entrou pela janela, bateu na carta, iluminou as palavras antigas. E aí veio: um choro daqueles que limpa. Não de raiva dele, mas de pena de mim mesma. De como eu me diminuí esperando por quem não merecia nem um minuto do meu tempo.
Levantei, peguei a carta, fui pra varanda. Fiz um chá de camomila (porque sou nutricionista até na alma, né?), acendi uma vela que comprei numa viagem pra Bahia. E queimei. Vi as palavras virarem fumaça, subirem pro céu. Não foi ritual de Instagram. Foi real. Foi eu dizendo: chega. Eu não preciso mais dessa história pra me sentir completa.
Agora a mala tá quase pronta. Amanhã eu vou pra Arraial com as meninas, mergulhar nas águas que parecem de Caribe, rir até doer a barriga, postar foto com o cabelo molhado e o bronzeado brilhando. Mas dessa vez, sem carregar peso nenhum. Sem esperar ninguém pra completar a foto.
Eu entendi, enfim: o amor que eu procurava tava aqui o tempo todo. No meu corpo que eu cuido, nas viagens que eu planejo, nas amigas que eu escolhi, no consultório onde ajudo tanta gente a se nutrir direito. O Rodolfo? Virou só uma carta queimada.
Se você tá aí, arrumando sua mala da vida, e encontrou uma “carta” velha guardada no peito... lê em voz alta. Queima se precisar. Porque você merece sol todo dia, não só quando alguém resolve aparecer.
Beijo grande.
Ana Clara
Nutricionista, carioca, apaixonada por praia e por mim mesma (finalmente).




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