Capítulo 1 — E Se Eu Estiver Certa?
por Yasmin
Todo mundo acha que quem vai embora está fugindo de alguma coisa. Mas ninguém entende o que é sufocar com tudo que ficou parado ao seu redor. Acordar todos os dias com a mesma sensação de que sua vida está presa numa reprise de si mesma. Eu não estava fugindo... eu estava indo em direção a mim.
Era madrugada. 3h e pouco. Minha cidade dormia em paz enquanto eu encarava as malas abertas no chão da sala. Uma xícara de café frio na mão, o cabelo preso de qualquer jeito, a mesma camiseta surrada que eu usava desde a faculdade. Eu ria sozinha, porque tudo parecia tão ridículo — e tão decisivo ao mesmo tempo.
Eu tinha 27 anos. Idade em que dizem que ou você acontece, ou você desaparece. Talvez não seja verdade, mas tem um peso. Eu sentia esse peso todos os dias, especialmente quando via meninas mais novas, com vozes parecidas com a minha, conseguindo espaço. E eu... ali, cantando em bares vazios, fazendo turnos duplos em lanchonetes pra pagar as contas, escutando os mesmos conselhos cansados de sempre.
Mas naquela noite eu decidi. Pela primeira vez, decidi de verdade. Eu ia embora. Eu ia tentar de novo. Só que agora, de verdade. Hollywood. O nome já vinha comigo há anos, como um sussurro insistente que eu tentei abafar com medo de parecer ridícula.
Minha mãe dizia que era só uma fase. Meus amigos diziam que o mundo da música era sujo demais pra alguém como eu. E eu… eu dizia que ia conseguir, mas no fundo morria de medo de estar só me iludindo.
Fechei a última mala como quem fecha um ciclo. Olhei pra uma foto minha criança, segurando um microfone de plástico, com os olhos brilhando. A mesma luz que às vezes vejo nos meus próprios olhos quando canto — aquela coisa meio mágica, que ninguém explica, mas que quem vê, sente.
Talvez eu tivesse algo especial. Ou talvez fosse só mais uma iludida. Mas se era pra quebrar a cara, que fosse tentando. E se fosse pra me perder, que fosse no caminho pra me encontrar.
No dia seguinte, embarquei com tudo que eu tinha e mais um pouco que não cabia na mala. Sentei perto da janela do avião, coloquei o fone de ouvido e deixei minha playlist tocar como trilha sonora de um filme que ainda estava começando.
E naquele momento, mesmo com medo, eu soube: alguma coisa ia mudar. Porque dessa vez, eu estava indo por amor. Amor à música. Amor a mim.
Capítulo 2 — Hollywood Não Me Esperava (Mas Eu Cheguei Mesmo Assim)
por Yasmin
O sol da Califórnia é diferente. Ele não te aquece, ele te expõe. Era como se tudo em mim estivesse à mostra assim que desci do ônibus. As olheiras, a mochila pesada, a blusa amassada, a alma cansada — tudo sob aquele céu azul escandaloso, como se o mundo dissesse: “bem-vinda, agora me prove que merece ficar.”
Eu olhava pros prédios altos e sentia que eles me olhavam de volta, julgando. Cada esquina parecia já ter visto mil versões de mim antes. Sonhadoras de cabelo preso, com fones no ouvido e esperança vazando pelos olhos. A diferença é que eu sabia o que tinha deixado pra trás. E isso me fazia forte.
Comprei um café barato numa lanchonete qualquer da Sunset Blvd e me sentei na calçada. Abri o celular, peguei a lista de lugares onde talvez estivessem contratando atendentes, garçonetes, qualquer coisa. Precisava arrumar um trabalho rápido, pagar o quartinho que aluguei por aplicativo. Ele ficava nos fundos de uma casa vitoriana, numa rua com cheiro de grama molhada e gatos preguiçosos.
Enquanto eu andava pelas ruas com meu currículo na mão, não conseguia evitar: eu cantava. Baixinho. Sabe quando a música é a única forma que você tem de não enlouquecer? Era isso. Eu cantarolava um refrão que escrevi ainda em casa, antes de viajar. Falava sobre se jogar no escuro e confiar que as estrelas estão lá, mesmo quando não dá pra ver.
As pessoas passavam e não me notavam. E isso doía e libertava ao mesmo tempo. Eu era mais uma. Anônima. Invisível. Livre.
Foi quando aconteceu.
Eu estava atravessando a Melrose Avenue, me distraindo com a própria voz, quando ouvi um carro parar devagar ao meu lado. Olhei sem dar muita atenção. Era um daqueles carrões pretos, brilhantes, que você só vê em clipe de rap ou na garagem dos sonhos de alguém.
A janela desceu devagar. Meu coração fez um barulho estranho, como se tivesse tropeçado.
— “Essa música é sua?”
Virei de verdade. E vi.
Um homem. Moreno, cabelos presos num coque samurai, barba bem feita, olhar intenso. Usava uma camiseta preta justa e uma calça jeans escura. Simples. Mas cada peça parecia feita sob medida. No braço esquerdo, uma tatuagem meio escondida, que parecia ter história. Muita história.
— “É...” — respondi, com a voz mais baixa do que queria.
Ele estendeu a mão pela janela e me entregou algo. Um cartão. Branco, limpo, com letras douradas em alto relevo.
Juan Carlos Domínguez
Produtor Executivo – Firelight Music Group
Eu não sabia se ria, se chorava ou se corria. O nome. O nome. Tinha algo nesse nome. Juan Carlos. Soava como um sinal, como um capítulo que eu já tinha sonhado mas ainda não tinha vivido.
Ele olhou dentro de mim. Eu juro. Como se enxergasse além da minha aparência cansada, como se visse a menina de oito anos cantando de olhos fechados no quintal de casa.
— “Você tem um rosto que o palco procura. E uma voz que me deu arrepio. Me liga.”
E foi embora. Assim.
Fiquei parada no meio da rua com aquele cartão na mão como se tivesse recebido um bilhete dourado da Fantástica Fábrica de Chocolate. Eu tremia. Não pelo medo. Pela possibilidade.
Não sabia ainda se era uma bênção, uma cilada, ou o começo do resto da minha vida. Mas naquele momento, pela primeira vez desde que cheguei, eu senti: eu tinha sido vista.
E, pela primeira vez, Hollywood me respondeu.
Capítulo 3 – O Som Que Eu Não Sabia Que Procurava
por Juan Carlos
A verdade é que eu já estava farto de tudo naquela tarde.
Farto das reuniões intermináveis com artistas que decoram as falas, mas esquecem como sentir. Farto do som do próprio nome nas vozes que só sabem bajular. Farto até do meu café preferido, servido numa sala de vidro com vista milionária, mas nenhuma alma.
Saí do estúdio mais cedo. Nem avisei. Peguei o carro e deixei o assistente falando sozinho com um contrato na mão. Só queria sumir. Respirar. Ouvir qualquer coisa que não fosse mais uma demo genérica.
E foi então que, ali no cruzamento, eu a ouvi.
Não era música de rádio. Era uma voz real, solta no vento. A voz de alguém que cantava só pra si mesma — e por isso mesmo, atingia mais fundo. Aquela voz não vinha de palco. Vinha de dentro.
Encostei o carro, abaixei o vidro devagar.
Ela estava andando apressada pela calçada, olhando pra frente, perdida nos próprios pensamentos, ou talvez nas próprias dores. Os cabelos estavam presos, mas mesmo assim ela chamava atenção. Tinha algo nela… uma força contida. A roupa era simples, sem pretensão alguma, mas o conjunto era de parar o tempo.
Cantava baixinho. E aquilo grudou em mim feito um feitiço.
Eu ia sair do carro. Juro que ia. Mas alguém do estúdio me viu, acenou, me chamou de volta. A realidade querendo me puxar. Olhei mais uma vez. Ela já estava atravessando. Eu estava prestes a perdê-la.
Foi aí que tomei uma decisão.
Peguei um cartão no porta-luvas, liguei o carro, e fui atrás dela. Na próxima esquina, ela estava parada num sinal. Me aproximei com cuidado, sem fazer alarde. Ela virou o rosto, desconfiada, mas não assustada. E quando nossos olhos se cruzaram, eu senti.
Senti mesmo. Como se o mundo tivesse ficado mudo por um segundo.
Estendi o braço pela janela. Entreguei o cartão. Disse apenas o essencial — e mesmo isso me pareceu demais.
Ela pegou com hesitação. Me olhou como quem tenta entender por que o destino está pregando uma peça. E então, seguiu andando.
Não me apresentei com pompa. Não disse meu nome como quem espera ser reconhecido. Não precisava. Porque naquele momento, não era sobre quem eu era. Era sobre o que ela fazia eu sentir.
Ela não sabia, mas eu já estava mudado.
Capítulo 4 – A Porta Fechada e o Cartão na Mão
por Yasmin
Fechei a porta do quarto com o ombro, equilibrando a bolsa num braço e a marmita com sobras da lanchonete no outro. O trinco fez um estalo seco, e por um segundo, aquele som me deu a sensação de que o mundo lá fora estava trancado. Mas não de um jeito seguro. Era mais como se eu tivesse deixado algo inacabado lá atrás.
Joguei a bolsa na cama, me encostei na porta e só então olhei para a minha mão. O cartão ainda estava ali. Meus dedos apertavam aquele pedacinho de papel como se fosse algo vivo. Como se ele fosse evaporar se eu não segurasse firme.
O nome: Juan Carlos.
Produções, contatos, um e-mail com final de gravadora grande. Nada mais. Nada de explicações, nada de promessas.
Encostei a cabeça na porta. O que foi aquilo?
Fechei os olhos e tentei lembrar do momento com clareza. Eu andando distraída, cantarolando para me manter firme. Aquele carro desacelerando ao meu lado. A janela descendo. Um rosto que eu nunca tinha visto, mas que parecia já me conhecer. Um olhar direto, sem medo, sem rodeios. E a voz dele — grave, limpa. Só disse poucas palavras. Uma oferta muda.
Mas foi real?
Fui até a janela do meu quartinho e olhei a rua desbotada pela luz do fim de tarde. As vozes das crianças brincando, o barulho distante de um cachorro latindo, um rádio tocando algo em espanhol na casa ao lado. Tudo estava ali, como sempre esteve. Mas eu... não.
Tirei o elástico do cabelo. Meus fios caíram soltos, como se eu precisasse me lembrar de quem sou de verdade. Uma mulher de 27 anos, cansada de tentar parecer forte, mas que ainda acredita — contra todas as probabilidades — que tem algo grande esperando por ela.
Olhei meu reflexo no espelhinho trincado da parede. Os olhos pareciam mais claros. Devia ser a luz. Ou a esperança voltando devagar.
Sentei na beirada da cama com o cartão sobre os joelhos.
"Yasmin", sussurrei pra mim mesma. "Você vai ligar?"
O silêncio não respondeu. Mas meu coração, esse sim, bateu mais forte do que deveria.
Capítulo 5 – A Voz que Ficou
por Juan Carlos
A chave girou na fechadura com a familiaridade de sempre, mas nada dentro de mim estava no mesmo lugar desde aquela tarde.
Thor veio correndo assim que empurrei a porta. Meu golden velho e leal, com aquele jeito exagerado de quem parece mais gente do que cachorro. Se jogou nas minhas pernas, como fazia desde filhote, e por um momento, tudo que eu consegui fazer foi ajoelhar e abraçá-lo como se ele fosse meu porto seguro.
— Calma, amigão… — murmurei, os dedos afundando no pelo dourado. — Hoje foi um daqueles dias, sabe?
Ele respondeu com um latido curto, quase como se entendesse. Fiel como sempre.
Joguei as chaves sobre a mesa da entrada e caminhei até a varanda dos fundos. A casa estava silenciosa, com aquela luz alaranjada escorrendo pelas janelas, anunciando o fim do dia em Los Angeles. Abri a porta de vidro que dava para a piscina e fiquei ali, parado, olhando o reflexo da água ondulando sob o céu tingido de dourado.
Mas não era o pôr do sol que eu enxergava.
Era ela.
A voz.
Aquela presença inesperada.
Tinha alguma coisa naquela garota. Algo que mexeu comigo de um jeito quase incômodo. Ela nem sabia que eu estava ali, escutando da calçada, e ainda assim, aquela melodia simples que ela cantarolava me prendeu. E o rosto dela… mesmo com o cabelo preso e o olhar perdido, havia algo — uma intensidade crua, sem polimento. Como se o mundo ainda não tivesse conseguido apagar o brilho dela.
Passei a mão pelos cabelos e fui até o bar da varanda. Servi um bourbon, sem gelo. Sentei na espreguiçadeira de madeira, de frente pra água, tentando esvaziar a mente. Mas ela voltava. A cada gole.
A forma como ela hesitou antes de pegar o cartão. Os olhos tentando esconder o susto. A delicadeza firme com que segurou o papel. Ela não disse nada, mas eu vi — ela entendeu que aquilo era mais do que um gesto profissional. E eu? Eu entendi que tinha acabado de cruzar com algo raro.
Talvez por isso o incômodo.
Talvez por isso a ansiedade.
Peguei o celular. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem.
Claro. Ainda era cedo. Ou talvez ela nunca fosse ligar.
Levantei. Entrei de volta na casa e fui até o estúdio, onde as luzes azuis e os painéis acústicos deixavam tudo mais frio, mais técnico. Coloquei os fones, abri uma nova faixa para revisar. Mas tudo parecia igual. Tudo parecia… morno.
Thor se deitou do meu lado, como se me vigiasse. Ou como se esperasse, junto comigo.
De repente, o celular vibrou.
Olhei.
Número desconhecido.
Los Angeles.
O coração acelerou.
Respirei fundo.
— Alô?
Silêncio por um segundo. Dois.
Depois, aquela voz.
— Oi… é o Juan Carlos?
Fechei os olhos, vencido.
— É ele sim.
E era ela.
Capítulo 6 – Entre a Coragem e o Medo
por Yasmin
— Oi… é o Juan Carlos?
Silêncio.
Por um segundo achei que tinha desligado sem querer.
Ou que ele não lembrava de mim. Talvez fosse melhor assim.
— É ele sim. — a voz dele chegou firme, grave, mas… suave. Como se soubesse quem era, como se estivesse esperando.
Meus dedos apertaram o celular com força. Meu coração batia alto no peito, como se quisesse sair pela garganta.
— Desculpa ligar assim… é que… você me deu o cartão. E eu não sabia se devia ligar. Mas aqui estou.
— E eu estou feliz que ligou. — ele disse. Sem pressa, sem exagero. Como se as palavras fossem cuidadas uma a uma.
Mordi o lábio, tentando organizar os pensamentos.
Mas tudo parecia confuso.
De repente, eu era só uma garota perdida em Hollywood com um sonho na mala e uma voz que ele tinha ouvido por acaso.
— Eu me chamo Yasmin. Acho que… você ouviu enquanto eu cantava, né? Lá perto dos estúdios.
— Ouvi. — ele confirmou, e teve uma pausa. — E não foi só ouvir, Yasmin. Aquilo me pegou. De verdade. Eu trabalho com artistas há mais de vinte anos, mas tem algo na sua voz. Algo que não dá pra treinar.
Eu engoli em seco.
— Pode ser só nervoso mesmo. — tentei brincar, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Ele riu. Um riso curto, mas sincero.
— Pode ser. Mas não é só isso. Me fala… você tá com tempo amanhã? Tem um lugar que eu quero te mostrar. Um estúdio. Tranquilo. Só pra ouvir você cantar de novo. Sem pressão.
Olhei ao redor do meu quarto improvisado, os pôsteres velhos nas paredes, a mala ainda aberta no canto. Meu “novo começo” mal tinha começado.
— Acho que… eu posso sim. — respondi. — Que horas?
— Meio-dia. Te mando o endereço. Pode ser?
— Pode. Obrigada por… não sei… por estar levando isso a sério.
Ele ficou em silêncio por um segundo. E quando falou de novo, a voz estava mais baixa. Mais próxima.
— Você merece ser levada a sério, Yasmin. E eu não costumo errar quando algo me toca desse jeito.
Senti o rosto esquentar. Um frio no estômago. Não era só o sonho, não era só a chance. Era ele. A forma como ele falava comigo. Como se estivesse vendo algo que nem eu via ainda.
— Então… até amanhã?
— Até amanhã, Yasmin.
E ele desligou.
Fiquei ali, olhando pro celular, com o coração batendo forte. Pela primeira vez desde que cheguei, algo parecia real.
Ou alguém.
Capítulo 7 – O Som Que Vem de Dentro
por Yasmin
Acordei antes do despertador. Na verdade, nem cheguei a dormir direito.
Aquela ligação… a voz dele… tudo martelava na minha cabeça. O jeito como ele falou comigo. O convite. O “você merece ser levada a sério”. Foi a primeira coisa que ecoou quando abri os olhos.
Levantei da cama improvisada com o corpo leve e a mente em alerta.
Me encarei no espelho. Ainda parecia eu. Mas também parecia alguém nova.
Amarrei o cabelo num coque frouxo enquanto a luz da manhã invadia o quarto. Aquele fio solto perto da nuca insistia em escapar, mas eu deixei. Por que não? Talvez fosse o detalhe que fizesse tudo parecer mais real. Mais meu.
Escolhi uma calça jeans escura e uma blusa de linho cru que deixava meu ombro à mostra. Simples, mas com personalidade. Um colar de corrente fina com uma pequena pedra verde no centro — presente da minha mãe, que sempre dizia que verde era a cor da esperança.
"Talvez ela esteja comigo hoje", pensei.
O estúdio ficava a uns vinte minutos dali. Peguei o metrô até uma parte da cidade que eu só tinha visto por fotos. Era limpa, organizada, com prédios modernos e cafés silenciosos. Um mundo à parte daquele burburinho caótico onde eu estava hospedada.
Segui as instruções que ele tinha mandado na mensagem.
E quando parei diante do número indicado, vi uma portaria discreta e uma fachada de vidro espelhado. Nenhum letreiro. Nenhuma placa. Só um interfone.
Apertei.
— Yasmin? — perguntou uma voz masculina, grave e nítida.
Era ele.
— Sim. Sou eu.
— Pode subir. Quinto andar. A porta vai estar aberta.
O elevador era silencioso, moderno. Eu me via refletida em todos os lados. E, por algum motivo, isso me deixava mais nervosa.
Quando cheguei no quinto andar, a porta já estava entreaberta. Empurrei com cuidado. Era um estúdio lindo.
Na verdade, era como entrar numa loja de instrumentos dos sonhos.
Violões pendurados nas paredes, alguns vintage, outros novinhos em folha. Guitarras coloridas em pedestais. Um piano de cauda preto brilhava no canto da sala, como quem já viu de tudo. Pedais, cabos, amplificadores, microfones. Tapete felpudo no chão. Cortinas grossas que abafavam o som da cidade lá fora. E o cheiro — madeira, café e algo levemente cítrico. Confortável.
Foi quando ele apareceu.
Juan Carlos.
Camisa preta de manga dobrada, jeans escuro, descalço.
Tinha algo despreocupado e, ao mesmo tempo, completamente atento nele.
Ao lado dele, um cara baixo, de cabelo castanho bagunçado e camiseta com estampa de Star Wars, mexia em uma mesa de som. Um monte de luzinhas piscavam. E mais ali, deitado com a língua de fora e o rabo balançando devagar… um cachorro enorme, dourado, lindo.
— Você é a Yasmin? — perguntou o técnico.
— Sou.
— Prazer, Arthur. Relaxa, a gente não morde — disse com um sorriso rápido e voltou pro seu universo de botões.
Juan se aproximou, o olhar direto nos meus olhos.
— Que bom que você veio. — disse ele, calmo.
— Eu ainda não sei se foi coragem ou loucura. — respondi.
— Às vezes são as duas coisas juntas que fazem dar certo. — ele sorriu. — Aqui é sua casa hoje. Quero conhecer seu estilo, sua voz. O que você tem pra me mostrar?
Olhei ao redor.
O piano parecia um pouco demais. Os microfones intimidados.
Mas um violão, de madeira escura, chamou minha atenção.
— Posso pegar aquele?
— Claro. — ele respondeu, e fez um sinal pro Arthur, que ajustou alguma coisa na mesa.
Peguei o violão com cuidado. Ele encaixou nas minhas mãos como se me conhecesse.
Sentei no banco baixo, ajeitei o microfone em frente e respirei fundo.
A sala ficou silenciosa. Até Thor, o golden, se ajeitou como se soubesse que algo ia acontecer.
— Essa música… eu escrevi num momento em que achei que não ia conseguir continuar. Quando a gente sente que o mundo todo tá gritando, e mesmo assim… a gente canta.
Toquei o primeiro acorde.
A melodia era simples. Mas a letra era minha pele.
Falei sobre medo. Sobre tentar de novo. Sobre ainda acreditar, mesmo quando a fé parece uma piada.
Quando terminei, não olhei pra ninguém por alguns segundos.
O silêncio era denso, mas não era vazio.
Levantei os olhos devagar.
Juan estava parado do outro lado da sala, com as mãos nos bolsos.
Mas os olhos… os olhos diziam tudo.
Arthur soltou um “caramba” baixinho.
Juan caminhou devagar até mim.
— Isso é seu? A letra, a melodia?
— Tudo meu.
— Então você não é só uma voz boa. Você é uma artista. — disse ele, mais sério do que antes.
Eu não soube o que dizer. Só sorri, sem graça.
Thor veio até mim e encostou a cabeça na minha perna. Fiz carinho devagar.
Juan continuava me olhando. Como quem vê algo raro.
E pela primeira vez, eu senti que talvez, só talvez… eu fosse mesmo tudo isso.
Capítulo 8 – A Voz Que Silencia o Mundo
por Juan Carlos
Ela sentou ali com o violão nas mãos como se aquele lugar já fosse seu.
E por um momento, o estúdio pareceu pequeno demais pra caber o que vinha de dentro dela.
Eu me mantive afastado, braços cruzados, mãos nos bolsos, tentando parecer calmo.
Mas dentro de mim, algo acontecia. Algo grande. Algo que fazia tempo que eu não sentia.
Quando os primeiros acordes soaram, o tempo desacelerou.
Não era só técnica.
Era alma.
Era dor, amor, luta.
Era uma mulher inteira contando ao mundo, sem pedir licença, o que viveu.
Eu não conseguia desviar os olhos.
Não era pela beleza — embora fosse impossível ignorar — era pela presença. Pela forma como cada nota parecia necessária, como se ela cantasse porque não havia outra escolha.
Arthur, na mesa de som, mal piscava.
E Thor, deitado aos meus pés, ergueu a cabeça como se até ele soubesse: algo especial estava acontecendo.
Ali, diante de mim, estava a verdade que eu sempre procurei nos artistas que passaram pela minha vida — e que quase sempre não encontrei.
Yasmin era o que eu nunca consegui fabricar.
Ela era a verdade crua, sem filtro.
Era o som da vida quando ninguém está olhando.
Senti um nó na garganta e engoli seco.
Não podia deixar transparecer. Não ali.
Mas por dentro… eu estava em pedaços.
A forma como ela segurava o violão.
A leveza dos dedos.
A intensidade da voz quando falava de algo que a feriu e, ao mesmo tempo, a fez ser quem é.
Era mais do que música.
Era confissão.
Era o tipo de coisa que não se ensaia, que não se grava em série.
Era única.
E foi nesse instante, enquanto ela fechava os olhos pra cantar o último verso, que eu percebi:
O destino tinha me colocado diante de uma artista rara.
E de uma mulher ainda mais.
Nada do que eu tinha planejado fazia mais sentido.
Nada do que veio antes importava tanto quanto o agora.
Eu queria ouvir aquela voz outra vez.
E outra.
E mais uma.
Queria entender cada palavra.
E descobrir o que mais morava naquele silêncio que ela deixava depois de cantar.
Ali, parado, com o coração batendo alto demais e a respiração presa entre um verso e outro…
Eu soube.
Eu estava perdido.
E não queria ser encontrado.
Capítulo 9 – O Começo de Algo
por Juan Carlos
A última nota ainda pairava no estúdio, mesmo depois que o silêncio tomou conta.
Me obriguei a manter as mãos nos bolsos.
Se eu tirasse, ia bater palma, tocar nela, ou ligar pro primeiro empresário que conhecesse. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Thor se aproximou dela e deitou como se já fosse velho conhecido.
Ela abaixou pra fazer carinho em sua cabeça, meio tímida, como se duvidasse que tivesse sido boa o bastante.
Boa o bastante?
Ela era absurda.
— Foi você quem escreveu? — minha voz soou mais baixa do que eu queria.
— Foi. eu já disse isso — respondeu ela, sem rodeios, mas sem arrogância.
Olhei pra Arthur, que não falava uma palavra. O cara já tinha gravado de tudo. Mas ele tava ali, parado, com os olhos arregalados como se tivesse presenciado uma aparição.
Voltei pra ela.
— Você tem noção do que acabou de fazer?
— Toquei. Só isso.
— Não, Yasmin. Você calou o mundo aqui dentro. Isso não é "só isso".
por Yasmin
Eu ainda segurava o violão como um escudo. Meu coração batia tão alto que era difícil acreditar que ninguém além de mim ouvia.
Juan andava de um lado pro outro. Dava pra ver que tava tentando manter a compostura, mas tinha algo nos olhos dele… um tipo de urgência. Como quem acaba de encontrar o que procurava há anos.
— Você tem outras músicas assim? — ele perguntou.
— Umas vinte... talvez trinta. Algumas inacabadas. Outras só existem na minha cabeça.
— Então a gente vai dar um jeito nisso. Você vai gravar aqui.
Arthur virou a cabeça devagar na direção dele.
— Vai? Assim, direto?
— Vai. — Juan respondeu, sem hesitar.
Arthur riu, meio sem acreditar.
— Você costuma pensar antes de fazer proposta de carreira, chefe.
— É, eu sei. — ele disse, com um meio sorriso. — Mas às vezes você reconhece uma verdade na hora. E ela não espera.
Me virei pra ele, sem entender se aquilo era um elogio, um teste, ou um convite.
— Você nem me conhece. Nem sabe se sou confiável, se vou aparecer amanhã.
Ele me olhou sério agora.
— Eu sei que você tem talento. Que tem verdade. Isso já é mais do que a maioria.
— E se eu disser que não tô pronta?
— Eu digo que ninguém tá. A diferença é que alguns têm coragem de começar mesmo assim.
Thor latiu uma vez, do nada.
Arthur soltou uma risada abafada, como se até o cachorro tivesse opinião.
— Pode ser só um projeto. Um EP. Começamos pequeno. Sem promessas. Mas com compromisso. — disse Juan.
Olhei ao redor. O estúdio. As guitarras. As janelas. O cachorro. Ele.
E algo dentro de mim respondeu antes da minha boca:
— Tá bom. Vamos começar.
Juan assentiu, lento. Como se cada segundo daquele momento fosse precioso demais pra desperdiçar.
E assim, sem plateia, sem holofotes, sem contrato…
a gente começou uma história.
Capítulo 10 – Entre Turnos e Acordes
por Yasmin
A lanchonete tinha cheiro de fritura, mas era limpa, organizada e pagava certinho.
Eu precisava da grana. Mas também, precisava daquilo: fazer algo por mim, com minhas mãos. Mesmo que fosse servir café e anotar pedidos com um sorriso cansado.
Os dias viraram um amontoado de horas apertadas.
Eu trocava o avental por um casaco surrado, e corria pro estúdio nas noites que ele conseguia me encaixar. Às vezes era só pra afinar ideias, mostrar trechos, gravar rascunhos.
E ainda assim… era o melhor momento do meu dia.
Juan não dizia muito. Às vezes, parecia até distante. Mas tinha algo no jeito que ele prestava atenção, que ele ficava em silêncio enquanto eu tocava — aquele silêncio cheio, cheio de tudo o que não era dito.
Arthur dizia que nunca tinha visto ele tão paciente com o processo criativo de alguém.
E quando Thor me recebia no portão, pulando como se a gente se conhecesse desde sempre, eu me lembrava do motivo de ter ligado aquele dia.
por Juan Carlos
As reuniões estavam me engolindo.
Os artistas do selo exigiam atenção, os contratos novos batiam à porta, e o estúdio precisava de uma reforma que eu adiava há meses.
Mas era só a Yasmin entrar que tudo se ajustava — não o caos, mas a forma como eu lidava com ele.
Ela chegava com cheiro de comida no cabelo e olheiras marcadas. Ainda assim, com um brilho nos olhos que eu já tinha esquecido que existia em alguém.
Às vezes ela errava acordes, esquecia letra, ria de si mesma. Outras vezes, cantava com tanta alma que eu precisava me afastar do vidro da cabine pra não deixar transparecer o que sentia.
Arthur me cutucava com o cotovelo, sorrindo de canto. Como se dissesse: te achei, Juan Carlos.
Mas não era isso.
Era como se eu tivesse me encontrado nela.
por Yasmin
Na quarta-feira, ele me esperou na porta do estúdio com dois cafés e um chocolate.
— O dia foi longo? — perguntou, me entregando a caneca.
— Todos têm sido. Mas hoje eu consegui escrever uma música nova no intervalo do almoço.
— Já quero ouvir. — disse ele, com aquele meio sorriso que não me acostumo.
Sentei no sofá com o violão no colo e ele puxou um banco, ficando perto o bastante pra me ver tocar… longe o suficiente pra não quebrar a mágica.
Toquei.
Era sobre recomeços.
Sobre achar um espaço no meio do cansaço, um olhar no meio da multidão.
E quando terminei, ele não falou nada. Só fechou os olhos e respirou fundo.
por Juan Carlos
A música era crua. Inacabada. Linda.
Ela tinha aquele dom raro de dizer o essencial sem gritar.
Era como se as canções dela tivessem vivido coisas que ela mesma ainda não viveu.
Peguei um papel, rabisquei acordes, propus um refrão diferente. Ela aceitou, debateu, sugeriu. A voz dela ganhava mais firmeza, mais segurança.
Cada encontro era uma camada nova.
No fim daquela noite, já passava das onze. Ela se espreguiçou no sofá, e pela primeira vez, comentou:
— É estranho. Cansada como tô, nunca tenho vontade de ir embora daqui.
— Porque aqui é onde você é quem nasceu pra ser. — eu disse, antes que pudesse filtrar.
Ela me olhou. Por um instante, o mundo ficou em pausa.
Mas logo sorriu, abaixando o olhar.
— E você é quem devia parar de fugir do que já sabe, Juan.
Não respondi. Mas anotei aquilo no peito.
por Yasmin
Quando saí, Thor veio até mim e me acompanhou até o portão.
Olhei pra trás e vi Juan ainda parado na varanda, com a caneca nas mãos, me observando.
Era como se a noite não quisesse acabar.
E pela primeira vez, mesmo exausta, eu me senti inteira.
Capítulo 11 – A Verdade em Um Abraço
por Juan Carlos
A música estava pronta. Finalizada. Mixada.
E era… melhor do que eu imaginava.
Arthur tinha feito uma base delicada, respeitosa.
A voz dela preenchia o espaço com uma força serena, e cada verso parecia ter sido gravado com o coração aberto.
Naquela noite, eu fiquei horas no estúdio ouvindo no repeat.
Ela não estava ali. E, mesmo assim, preenchia tudo.
Era hora de apresentar. Não como experimento, não como promessa — mas como artista.
— Amanhã eles vão ouvir. — mandei a mensagem e fiquei olhando pra tela até o celular escurecer.
E quando ela respondeu com um “tô pronta”, eu entendi que estava mais nervoso que ela.
por Yasmin
Na noite anterior, mal dormi.
Não por medo do que viriam a pensar.
Mas porque, pela primeira vez, eu sentia que aquilo me representava por completo.
Minha voz. Minha letra. Meu tom.
A música não pedia aprovação — ela apenas existia.
E, por mais contraditório que fosse, eu devia isso ao Juan. Ao jeito dele de me deixar livre, ainda que se contivesse o tempo inteiro.
Quando cheguei no estúdio, ele estava mais formal que o normal.
Camisa preta, blazer escuro, sem o habitual coque bagunçado. Mas os olhos… estavam ansiosos. Como se algo importante estivesse prestes a acontecer.
— Hoje você vai ser apresentada como artista do selo. — disse ele, direto.
Engoli seco.
— Eles sabem quem escreveu?
— Sabem que é sua. E que eu estou apostando tudo nela.
por Juan Carlos
A reunião era apenas com os diretores criativos, gente que já tinha ouvido muita coisa.
Mas quando o vocal da Yasmin entrou, o silêncio se instalou.
Dois minutos depois, um dos caras tirou os fones e soltou:
— Quem é essa menina?
Eu sorri.
— Yasmin. Com Y.
Arthur trocou um olhar comigo. Não precisava dizer nada — ele sabia.
Durante a reunião, elogiaram a melodia, a autenticidade, o “fator verdade”. Um deles falou que era como ouvir uma alma cantando, não um produto.
— Ela tem mais? — perguntaram.
— Ela tem tudo. — respondi, sem pensar.
por Yasmin
Fiquei na outra sala enquanto tudo acontecia.
Mas quando Juan voltou, com Arthur atrás dele e um brilho estranho no olhar, meu coração apertou.
— Eles querem te conhecer. — disse, simples.
Mas seus olhos diziam mais.
Diziam “deu certo”. Diziam “você é incrível”. Diziam tudo o que a boca dele ainda não ousava confessar.
Arthur foi o primeiro a falar, tentando quebrar a tensão:
— Vou fingir que não vi esse brilho nos olhos de vocês dois.
Rimos. Meio sem graça.
Thor entrou na sala nesse instante, e pareceu nos salvar de uma conversa que ninguém sabia conduzir.
por Juan Carlos
Depois que Arthur saiu, ficamos nós dois.
A música tocava em volume baixo. O refrão final repetia:
"E quando o mundo pesou demais, eu cantei...
E cantar era tudo o que eu tinha pra não me perder de mim."
Yasmin me olhou.
E naquele instante, eu só consegui dizer:
— Obrigado… por confiar. Por deixar eu fazer parte disso.
Ela não respondeu.
Apenas se aproximou, devagar.
E me abraçou.
Não foi rápido.
Não foi breve.
Foi um abraço inteiro. De corpo e alma.
Um daqueles que você não dá em qualquer um, e que diz tudo o que ainda não encontrou palavras.
Minhas mãos estavam nas costas dela. As dela em volta da minha cintura.
E por um segundo, o tempo parou.
Arthur, que tinha voltado para pegar o celular esquecido, parou na porta.
Fez menção de falar algo… mas recuou. Deixou.
por Yasmin
Não sei quanto tempo durou.
Só sei que, quando soltei, me senti mais leve.
Juan parecia perdido por dentro. Mas, como sempre, contido.
Sorri.
— Agora sim, parece que a gente começou.
E ele respondeu, sem hesitar:
— Começamos.
Capítulo 12 — O Brilho que Não Dá Pra Segurar
Eles saíram do estúdio lado a lado, a noite ainda jovem, muito diferente das vezes anteriores em que o relógio parecia rir da exaustão deles. Yasmin ajeitava a alça da bolsa, com o rosto iluminado por uma mistura de cansaço e euforia.
Yasmin — (falando enquanto caminhavam pela calçada calma)
“Juan, está tudo acontecendo tão rápido, né? A música tocando no rádio, as pessoas comentando... e eu saí da lanchonete, finalmente tenho meu próprio apartamento. É tudo tão novo, e às vezes parece até surreal.”
Juan — (olhando para ela, sorrindo com aquele misto de orgulho e cumplicidade)
“É assim mesmo quando o artista é bom, Yasmin. O talento não espera, a vida acelera junto.”
Sem aviso, Juan segurou a mão dela com firmeza, mas sem pressa, puxando-a para si.
Juan — “Que tal a gente continuar essa noite com um jantar aqui em casa? Acho que merecemos comemorar esse começo que a gente construiu.”
Yasmin sorriu, o calor do toque dele espalhando uma eletricidade que ela já sentia há tempos. “Adoro a ideia.”
Chegando à casa de Juan, ele já abriu uma garrafa de vinho, o aroma da bebida se espalhando pelo ambiente enquanto eles brindavam ao que estava por vir.
Juan — (erguendo a taça, com o olhar fixo nela)
“Ao início de tudo... e ao que ainda vai acontecer.”
Eles beberam e o clima começou a se dissolver no silêncio confortável, nas trocas de olhares que falavam mais que mil palavras. Aos poucos, o desejo que estava guardado, contido pelas pressões do trabalho, começou a explodir em cada gesto, em cada sorriso mais demorado.
Yasmin — (voz baixa, quase um sussurro)
“Sabe, desde o dia que você me ouviu tocar, eu sinto isso... uma coisa que não consigo explicar direito. É medo, mas é mais vontade. De ser mais, de estar perto.”
Juan — (se aproximando devagar, os olhos brilhando)
“Eu também. Eu me segurei para não misturar tudo com o profissional, mas não dá mais pra segurar. Você mexe comigo de um jeito que eu nunca senti.”
O vinho virou combustível para a noite deles, e as mãos se encontraram de novo, dessa vez com um toque mais urgente, um arrepio percorrendo a pele.
O beijo veio quase sem aviso, uma explosão de tudo que estava represado, quente e verdadeiro. Eles se entregaram ao momento, ao desejo, ao medo e à alegria que uma nova história podia trazer.
Cada gesto era um sussurro de admiração, cada toque uma promessa não dita.
A noite se estendeu, cheia de confissões, carícias e aquele sentimento de que ali, naquele instante, tudo estava certo.
Capítulo 13 — O Amanhecer de Um Sonho
A luz da manhã entrava timidamente pela fresta da janela, desenhando linhas douradas sobre a pele quente do Juan ao meu lado. Ainda meio sonolenta, eu sentia o pulso dele contra meu peito, uma batida lenta e constante que parecia sincronizar com a minha.
Fiz um carinho suave nos cabelos dele, lembrando da intensidade da noite passada — cada toque, cada beijo, a entrega sem medo, a descoberta de algo que eu nem sabia que precisava tanto.
Nunca imaginei que algo tão real pudesse acontecer tão rápido. Estar ali, deitada ao lado dele, depois de tudo que passamos... parecia que eu estava vivendo um sonho. Um sonho que finalmente se tornava realidade.
O corpo dele junto ao meu, a respiração calma, o calor que ainda percorria minhas veias... Tudo isso me enchia de uma sensação nova, uma força que me fazia sentir viva e invencível.
Ele despertou com um sorriso, e nossos olhos se encontraram — não havia necessidade de palavras, só a certeza de que estávamos exatamente onde deveríamos estar.
Mais uma vez, nos entregamos ao amor, sem pressa, como se o tempo fosse só nosso. Cada gesto, cada suspiro, era uma promessa silenciosa de que aquela conexão ia além do trabalho, além da música.
Quando finalmente nos levantamos, o mundo lá fora parecia diferente — mais amplo, mais cheio de possibilidades. Eu sabia que a agenda de shows, que logo chegaríamos a ver, seria só o começo da vida que eu sempre quis.
Com o coração acelerado, sentei na cama, peguei meu celular e abri o documento que Juan me enviou na noite anterior. Ali estava: a agenda oficial de shows, o roteiro que ia transformar o sonho em realidade.
Era tudo tão rápido, tão intenso... e eu queria que aquela sensação de felicidade nunca acabasse.
Eu sou uma pop star agora. E tenho o amor dele ao meu lado.
Capítulo 14 — Renascendo com Ela
Acordar e encontrá-la ali, ainda envolta no silêncio da manhã, foi como respirar pela primeira vez depois de muito tempo preso debaixo d’água. O mundo que eu conhecia antes parecia distante, desconexo. Mas ela... com aquela respiração tranquila e o corpo quente ao meu lado, tudo fazia sentido de novo.
Eu sabia, no fundo, que aquela era a mulher que eu sempre esperei — o amor da minha vida, a musa que há tanto tempo buscava, não só na música, mas em tudo que eu fazia.
Ela não era apenas a artista brilhante que encantava multidões com sua voz e talento. Era também a profissional que eu mais admirava, determinada, corajosa, e cheia de uma luz que nenhum obstáculo conseguia apagar.
A vida me levou por caminhos tortuosos, mas me trouxe até aqui, naquele instante perfeito. Era real — muito mais do que um sonho distante. Era a Yasmin, ali comigo, compartilhando cada momento, cada conquista, cada desejo.
Meus dedos tocaram seu rosto com cuidado, como se temesse quebrar aquela magia. Eu queria que aquele sentimento durasse para sempre, que aquele amor fosse a âncora que eu sempre precisei para me manter firme, para continuar criando, acreditando.
Sabia que a jornada dela estava só começando — os shows, a fama, as expectativas. Mas eu estaria ao lado dela em cada passo, não só como produtor, mas como homem que a ama mais do que palavras poderiam expressar.
A vida finalmente tinha um propósito claro — e ela era tudo que eu sempre quis.
Capítulo 15 — O Ultimato
O telefone tocou no meio da tarde, no exato momento em que eu começava a me preparar para a coletiva de imprensa da minha última turnê. Atendi sem pressa, até ouvir a voz firme do diretor executivo da gravadora.
— Yasmin, preciso que venha ao escritório agora. É urgente e confidencial. Não conte nada ao Juan.
Um frio percorreu minha espinha. Por que tanto segredo?
Cheguei à sala da reunião, onde rostos sérios me esperavam, sem sequer um sorriso de boas-vindas.
— Yasmin — o diretor começou, com a voz pesada —, você está indo muito longe. A turnê foi um sucesso, o segundo álbum está em produção... mas temos um problema grave.
Engoli seco, esperando que dissesse algo sobre a logística ou prazos.
— O problema é Juan Carlos.
Meu peito apertou. O que ele fez?
— Ele está causando instabilidade aqui dentro. Está tomando decisões que não são do nosso interesse e está ficando longe do profissionalismo esperado.
Fiquei muda, buscando entender.
— O que exatamente ele fez? — perguntei, a voz trêmula.
— Não podemos entrar em detalhes — disse o diretor, sem rodeios —. A única coisa que você precisa saber é: ou você corta relações com ele, ou sua carreira termina aqui.
O silêncio invadiu a sala. Um ultimato claro, sem espaço para negociação.
Eu, que havia encontrado em Juan muito mais que um produtor, um amigo e um amor, estava agora diante da escolha mais difícil da minha vida.
Como explicar isso? Como entender que o homem que sempre esteve ao meu lado era visto como um inimigo da minha carreira?
A pressão esmagadora do mundo artístico me esmagava, enquanto o amor verdadeiro que eu sentia por Juan ameaçava ser um peso, não um apoio.
Naquele instante, tudo que eu havia conquistado e tudo que eu desejava construir estava prestes a ruir — e eu precisava decidir quem eu seria.
Capítulo 16 — Entre a Razão e o Coração
Algo na reunião daquela tarde não se encaixava. As palavras do diretor da gravadora ainda ecoavam na minha cabeça, mas uma parte de mim sentia que havia mais — algo oculto, um jogo muito maior que eu não conseguia enxergar.
Por mais que a dor apertasse o peito, aceitei o ultimato. “Eu vou tirar o Juan da minha vida,” sussurrei para mim mesma, como se estivesse me preparando para o pior.
Saí da gravadora com passos pesados e um nó na garganta. No táxi, as lágrimas vieram sem pedir licença. Chorei por tudo que estava acontecendo, pelo amor que eu teria que abrir mão, pela traição que parecia invisível. Mas, no fundo, sabia que não poderia simplesmente desistir. Não sem entender por quê.
Chegando ao meu apartamento, o silêncio da casa não amenizou o turbilhão dentro de mim. Abri a porta e me deparei com uma surpresa inesperada: Juan, com um sorriso terno, segurando flores, bombons e uma garrafa de vinho.
— Achei que precisava disso — disse ele, enquanto a dor em seus olhos encontrava a minha.
A noite que se seguiu foi intensa, cheia de paixão e entrega, como se tentássemos congelar o tempo, esquecer o mundo lá fora e o que nos separava. Era amor em cada toque, em cada suspiro.
Mas o amanhecer trouxe consigo a dura realidade.
Sentei ao seu lado, coração apertado, e falei:
— Juan, eu preciso terminar isso. Por enquanto... por enquanto, é melhor assim.
Ele não disse nada, só segurou minha mão, deixando que nossas lágrimas falassem o que as palavras não conseguiam.
Eu sabia que essa despedida não era o fim — era apenas o começo de um caminho tortuoso, onde eu teria que desvendar os segredos por trás daquela reunião e proteger o que mais amava, mesmo que para isso precisasse me afastar.
Capítulo 17 — A Última Noite
A noite mais linda. A manhã mais cruel.
Levei flores, bombons e um bom vinho. Ela merecia mais que isso, mas era o que eu tinha naquele momento: um gesto simples carregado de tudo que eu sentia.
Consegui entrar no apartamento com a ajuda do síndico — a ideia era fazer surpresa, dar um respiro no caos da gravadora, fugir por umas horas de tudo o que estavam tentando fazer comigo. Ela era meu refúgio. E eu queria me perder nela.
Quando ela abriu a porta e me viu, os olhos dela falaram antes da boca. Havia algo ali... algo que eu não soube decifrar. Mas sorriu. Me abraçou. E por um instante eu achei que o mundo estava em ordem.
— Você tá linda. Eu precisava te ver. Precisava... de nós — falei com a voz rouca, segurando seu rosto com as duas mãos.
Ela não respondeu. Só me beijou.
E foi como acender um fósforo numa sala cheia de gasolina.
Ali, naquele beijo, já havia algo diferente. Urgente. Bruto.
A gente não chegou nem perto do vinho.
As roupas foram arrancadas em silêncio, como se falar fosse atrapalhar o que o corpo gritava. Eu a levei até o sofá e beijei cada centímetro da sua pele como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse acabar e só restasse aquela noite.
— Você é tudo. Tudo. — sussurrei entre os gemidos dela, com as mãos agarradas na sua cintura, puxando-a pra mim como se ela fosse escapar.
Ela se entregava como nunca. Os olhos fechados, os lábios entreabertos. Cada movimento dela dizia tanto quanto os gemidos: era amor, era dor, era despedida.
Me perdi nas curvas dela, nos suspiros abafados, no som do corpo dela se rendendo ao meu. Era intenso, selvagem, desesperado. Tinha algo ali que me fazia querer parar o tempo. Aquela sensação de que, se eu dormisse, tudo acabaria.
E acabou.
Ao amanhecer, com a luz fraca entrando pelas frestas da janela, ela me olhou com um peso nos olhos que eu nunca tinha visto antes.
Sentei na cama e sorri, achando que íamos repetir a noite. Mas não.
Ela respirou fundo.
— Juan... a gente precisa terminar.
O tempo parou. O mundo caiu. Meu peito estourou.
Eu queria perguntar por quê, o que estava acontecendo, onde eu errei. Mas não consegui. As palavras não saíam. Só havia um gosto amargo na boca. O mesmo gosto que fica quando alguém arranca seu coração sem avisar.
Ela saiu do quarto. Eu fiquei.
Nu. Em pedaços.
Sem saber que inferno tinha começado.
Capítulo 18 – O preço da verdade
por Yasmin
Os dias passavam lentos. Quase cruéis.
Eu seguia minha rotina entre a gravadora e o estúdio, forçando sorrisos e executando ordens. Meu segundo álbum estava ganhando forma, mas cada nota, cada letra, soava vazia sem ele.
Juan.
Meu parceiro. Meu melhor amigo. Meu amor.
A dor de tê-lo perdido me consumia, mas era necessário. Eu precisava entender. Precisava descobrir por que queriam destruí-lo. Algo estava errado desde aquela maldita reunião. Aquilo não era sobre mim. Era sobre ele.
Eles queriam tirar Juan do jogo.
E infelizmente, só havia uma maneira de descobrir o que realmente estava por trás daquelas portas trancadas: me aproximar do diretor executivo.
Sim, eu fiz o impensável.
Usei minha imagem, minha presença, minha pele, minha boca.
Seduzir aquele homem foi a coisa mais nojenta que já fiz. Me odiei a cada segundo. Senti vontade de vomitar toda vez que ele tocava meu corpo como se tivesse algum direito.
Mas eu aguentava.
Porque por trás dos sorrisos fingidos, eu ouvia. E vasculhava. E anotava.
Sabia que Juan havia sido demitido. A notícia correu nos bastidores como uma avalanche.
Fraudes. Plágio. Distorções em contratos. A acusação era absurda — e falsa. Eu sabia. Eu o conhecia.
Juan nunca faria isso.
Mas ele não se defendia. Sumiu. Levou suas coisas e desapareceu como se nunca tivesse existido ali.
E eu...
Eu chorava toda noite.
Chorava de saudade. De arrependimento. De nojo. E de desespero.
Não falávamos desde a última noite. Desde aquele adeus mudo, depois da noite mais intensa da minha vida. Eu lembrava de cada toque, cada palavra, cada gemido dele como se meu corpo ainda carregasse marcas.
Até do Thor eu sentia falta. Do jeito que ele dormia no canto da sala do estúdio, sempre perto do Juan. Eles eram o meu lar. E eu havia me exilado dele.
Mas eu precisava ir até o fim. Precisava descobrir tudo. Nem que isso me custasse a alma.
Minha segunda turnê estava sendo desenhada. Os contratos estavam prestes a ser assinados, e eu sorria nas reuniões, fingia estar empolgada, mas por dentro... só restavam ruínas.
Eu não me importava mais com fama. Com aplausos. Com números.
Eu só queria a verdade. E o homem que amava de volta.
Mesmo que ele jamais me perdoasse por tudo que me sujeitei a fazer.
Capítulo 19 – No Fundo do Poço
Por Juan
Eu não me lembrava mais do último dia em que levantei da cama antes do meio-dia.
A verdade é que... nem sabia se era dia. As janelas estavam fechadas, o quarto escuro e o silêncio só era quebrado por um latido baixo de Thor ou pelo som de uma garrafa sendo aberta.
Meu apartamento tinha se tornado um mausoléu da minha própria existência.
E o corpo que carregava meu nome já não era o mesmo.
Thor, fiel como sempre, não me deixava. Dormia ao lado da cama, com os olhos tristes, como se soubesse o quanto meu coração sangrava.
Ele sentia falta dela também.
Arthur vinha de vez em quando. Batia na porta com paciência e me trazia alguma comida. Tentava conversar. Mas como explicar o inexplicável?
"Você precisa reagir, cara", ele dizia.
Mas como?
Eu perdi tudo.
Fui demitido como um criminoso. Humilhado. Difamado. Chamado de ladrão.
E o pior: ela... Yasmin... me deixou sem dizer por quê.
A mulher da minha vida... foi embora depois da noite mais intensa que já tivemos.
Não me explicou. Não me olhou nos olhos. Só disse: "acabou".
E aquilo me quebrou.
O homem que andava de peito estufado, que escrevia músicas com paixão e cuidava do brilho dela como se fosse um anjo...
Agora estava aqui. Caído.
Uma sombra.
"Talvez seja isso. Talvez nunca tenha sido suficiente pra ela", eu dizia a mim mesmo.
Mas algo no fundo do meu peito gritava: não era só isso.
E, mesmo sem forças, eu ainda sonhava com ela toda noite.
Gemidos. Toques. Olhares.
E depois... o silêncio.
O silêncio mais cruel da minha vida.
Capítulo 20 – A Verdade Começa a Surgir
Por Yasmin
Foram meses de silêncio, noites frias e sorrisos falsos.
Mas hoje... alguma coisa finalmente quebrou a muralha.
Eu estava na sala do diretor, onde tinha começado toda essa dor. Um papel esquecido sobre a mesa. Uma pasta meio aberta. Um descuido.
Minhas mãos tremeram quando abri a pasta com disfarce. Os documentos estavam lá: planilhas adulteradas, pagamentos indevidos, contratos com assinaturas forjadas — e o nome de Juan em destaque.
Eles o usaram.
Ele era o bode expiatório.
Um produtor com autonomia, nome crescente e respeito entre os músicos... era o perfeito culpado para encobrir os desfalques da diretoria.
E ele não fazia ideia.
Tudo o que eu temia... era verdade. E pior.
Eu engoli o choro, fechei a pasta e saí como se nada tivesse acontecido.
O ódio queimava por dentro. E a culpa.
Eu havia mentido. Enganado. Traído Juan. Mas agora... eu tinha a chave.
Era hora de agir.
Minha vingança começaria ali. Eles iriam pagar por tudo. Por cada lágrima dele, por cada noite que dormi ao lado de um monstro para conseguir informações.
Por terem feito de mim uma peça no jogo sujo deles.
Juan merecia saber a verdade. Mas não ainda.
Antes, eles precisavam cair.
Um por um.
E dessa vez, eu não teria piedade.
Capítulo 21 – A Voz por Trás do Silêncio
Por Yasmin
Arthur chegou no café cinco minutos antes do combinado. Olhou em volta, nervoso. Fazia tempo que não via Yasmin pessoalmente.
Quando ela entrou, o tempo pareceu desacelerar.
Não era a estrela dos palcos. Era uma mulher abatida, pálida, com olheiras cobertas por maquiagem mal feita e os ombros curvados por algo que ele não entendia.
— Yasmin... — ele disse, tentando entender o que se passava.
— Obrigada por vir, Arthur. Eu não tenho muito tempo, mas preciso da sua ajuda. Você ainda tem acesso ao banco de arquivos da gravadora?
Ele estranhou o tom direto, quase frio.
— Tenho. Mas por quê? O que você tá planejando?
Ela respirou fundo, olhou ao redor e segurou a mão dele.
— Juan foi usado. Eu tenho provas. A empresa cometeu uma série de fraudes e precisavam de um culpado. Usaram o nome dele. Alteraram documentos. Ele não fez nada. E você sabe disso.
Arthur arregalou os olhos, mas não era só surpresa o que estava ali.
— Eu... Yasmin... por que você tá me dizendo isso agora? Onde você esteve esse tempo todo? Você... você ficou com o Eduardo. Com ele, Yasmin! O Juan… ele tá destruído. Bebendo todos os dias. Mal se alimenta. Vira e mexe eu vou lá pra ver se ele ainda tá vivo. Ele ama você. E você desapareceu!
As palavras dele foram como tapas. Mas ela não desviou.
— Eu sei. E talvez ele nunca me perdoe. Nem sei se deveria. Eu me sujeitei ao pior, Arthur. Dormi com Eduardo... sim. Mas não por prazer. Por estratégia. Porque era o único jeito de acessar os arquivos confidenciais. Eu precisei sacrificar minha dignidade pra tentar salvar a dele. O Juan é inocente e eu vou provar isso.
Arthur respirou fundo, passou as mãos no rosto e balançou a cabeça.
— Você tem noção do que tá dizendo? Se isso for verdade... se tudo isso for real...
Yasmin abriu a bolsa. Colocou cópias dos documentos sobre a mesa.
— Está tudo aqui. E eu preciso de você pra conseguir o restante. Eu quero todos os nomes. Todos os envolvidos. Quero derrubar essa gravadora, Arthur. Nem que isso acabe com a minha carreira. Mas eles não vão enterrar o Juan vivo.
Ele olhou os papéis, depois para ela. Pela primeira vez, viu nos olhos de Yasmin a mulher que todos admiravam no palco: determinada, corajosa, furiosa.
— Eu te ajudo. Mas você tem que me prometer uma coisa...
Ela assentiu.
— Promete que, depois disso, vai falar com ele. Vai olhar nos olhos do Juan e explicar tudo. Porque ele merece isso, Yasmin. Nem que seja só pra entender por que foi deixado pra morrer sozinho.
A garganta dela fechou.
— Eu prometo.
Três dias depois...
Arthur entrou na empresa com um pendrive escondido na meia. Yasmin, com um crachá de visitante falso, foi direto à sala de reuniões vazia onde tinham deixado um notebook com acesso liberado ao servidor.
Ela suava, o coração a mil. Mas o foco era total.
Arquivos confidenciais. E-mails internos. Relatórios financeiros ocultos.
Estava tudo lá.
Nomes: Eduardo, Beatriz, Celso — todos da diretoria.
Provas claras de desvio de verba, contratos fantasmas, uso de nomes de produtores para justificar gastos inexistentes.
Ela copiou tudo. Cada documento.
Antes de sair, ela olhou para a sede da empresa pela última vez.
A gravadora que a lançou... seria a mesma que ela enterraria.
Por Juan
O telefone tocou.
Ele não atendeu.
Thor latia de leve. Como se sentisse que algo estava prestes a mudar.
Arthur chegou. De novo. Mas dessa vez... diferente.
— Abre a porta, cara. Você vai querer ouvir isso.
Juan demorou, mas abriu. Barba por fazer, olhos fundos, alma esmagada.
— Que foi?
Arthur entrou. Colocou um envelope em cima da mesa.
— A verdade. Tudo. A Yasmin descobriu. E agora a gravadora vai pagar.
Juan não entendeu.
— Como assim?
Arthur o olhou nos olhos.
— Ela nunca te traiu de verdade. Ela te protegeu como pôde. E agora, tá colocando a cabeça dela a prêmio pra limpar o seu nome.
Juan não conseguiu responder. Só segurou o envelope com as mãos trêmulas.
E pela primeira vez em meses... chorou por algo que não era dor. Era esperança.
Capítulo 22 – A Verdade ao Vivo
Por Yasmin
Os flashes estouravam como relâmpagos. O salão do hotel estava lotado. Jornalistas, fãs, executivos, câmeras ao vivo. Era o anúncio da sua tão aguardada segunda turnê. Mas Yasmin não sorria.
Ela usava preto.
Não era luto de roupa, era de alma.
Arthur estava ao lado, disfarçado como assessor de imprensa. O pendrive no bolso do paletó parecia pesar como chumbo.
Eduardo, diretor da gravadora, estava sentado na primeira fileira, confiante, com um sorriso cínico. Vários outros diretores também estavam presentes. Riam, murmuravam entre si. Eles achavam que controlavam o espetáculo.
Mal sabiam que aquele seria o último ato deles.
Yasmin subiu ao palco. Ajustou o microfone. Respirou fundo.
— Boa tarde a todos. Obrigada por virem.
Pausa. O salão se aquietou.
— Hoje era pra ser o lançamento da minha segunda turnê. Mas eu não vou cantar. Não ainda. Hoje, eu tenho outra coisa pra dizer.
Eduardo franziu a testa. Arthur acionou discretamente o notebook ligado ao telão. A imagem de Yasmin deu lugar a uma tela preta com uma única palavra em branco: VERDADE.
— Há meses, tenho vivido um pesadelo. Um pesadelo que começou quando vi o nome do homem que eu amava ser arrastado na lama. Quando vi Juan ser demitido, acusado de fraudes que ele nunca cometeu. Quando me vi obrigada a me calar... até agora.
Um burburinho começou. Eduardo se remexeu na cadeira.
— Eu fui usada. E fui cúmplice. Me entreguei a alguém que desprezo, porque era a única maneira de acessar documentos que ninguém queria que eu visse. Fui ao fundo do poço por justiça. E eu trouxe tudo comigo.
A tela mudou. E-mails. Nomes. Contratos falsificados. Provas.
— Essa empresa, a mesma que me lançou, desviou milhões. Inventou produtores. Manipulou relatórios. E quando a verdade ameaçava vir à tona, precisava de um bode expiatório. E esse bode foi o Juan.
A imprensa explodiu. Câmeras se voltaram para os executivos. Eduardo se levantou, apontou para Yasmin.
— Isso é mentira! Você está delirando, Yasmin! Está arruinando a própria carreira!
Ela olhou diretamente pra ele. E foi como um trovão:
— Já entreguei tudo à Polícia Federal. Enquanto a coletiva acontecia, mandados estavam sendo cumpridos. Você está acabado, Eduardo. Todos vocês estão.
Policiais entraram no salão. Algemas começaram a brilhar. Um a um, os diretores foram detidos. Eduardo tentou correr. Não conseguiu.
Yasmin só olhava. Parada. Vazia por dentro.
Arthur sussurrou:
— Você conseguiu.
Ela apenas balançou a cabeça, como quem sabe que venceu, mas perdeu muito no caminho.
Por Juan
Na televisão, a transmissão ao vivo não deixava dúvidas.
Ele viu cada palavra. Cada gesto. Cada prova.
Thor latiu. Juan estava sentado no chão da sala, sujo, com uma garrafa pela metade na mão. Mas os olhos estavam grudados na TV.
Quando Eduardo foi algemado, ele não vibrou.
Chorou.
As lágrimas corriam em silêncio, misturando dor e alívio.
Ela fez isso por ele.
Ela se sujou por ele.
E ele a julgou.
O peito apertava de um jeito brutal. Doía pensar nela com outro homem. Doía mais ainda saber que foi por amor. Por ele. Por justiça.
O celular vibrou.
Mensagem de Arthur:
"Ela fez o que prometeu. Agora, só falta você."
Juan soltou a garrafa. Pegou o casaco. E saiu.
Capítulo 23 – Quando o Amor Ainda Sangra
Por Yasmin
As ruas pareciam em câmera lenta. Carros passavam. Pessoas falavam. Mas tudo era ruído, tudo era nada.
Ela andava sem rumo. As mãos ainda tremiam. As palavras da coletiva ecoavam na cabeça como bombas explodindo em silêncio. Ninguém a impediu de sair. Ninguém a chamou. Nenhum jornalista quis saber se ela estava bem. Eles só queriam sangue.
Ela tinha entregado tudo. A dignidade, o corpo, a alma.
E agora só restava o vazio.
As lágrimas desciam, pesadas. Os pés doíam. A maquiagem escorria. O peito arfava como se faltasse ar. Mas ela continuava andando, como quem busca alguma rua que leve de volta pra si mesma.
Até ouvir a voz que ela achou que nunca mais escutaria:
— Yasmin!
Ela parou. Não se virou. Estava fraca demais pra acreditar.
Aquela voz. Aquela voz. Aquela voz.
— Yasmin, sou eu. Por favor.
Ela tentou correr, o corpo reagiu com atraso. As pernas bambearam. E ela caiu. No meio da calçada. Como se o mundo inteiro tivesse desistido de sustentá-la.
Chorou. Baixinha. Quieta.
E então sentiu os braços dele. Fortes. Tremendo.
Por Juan
Ela estava ali. No chão. Tão frágil quanto ele se sentia por dentro.
Corri. Me ajoelhei ao lado dela. Abracei como se ela fosse feita de cacos.
E talvez fosse mesmo.
— Eu tô aqui — eu disse, mas minha voz falhou.
Ela não olhou pra mim. Apertou os olhos, como se não merecesse me ver.
— Você me salvou... — minha voz quebrou de novo. — Mesmo depois de tudo, você me salvou.
Ela chorava. Mas em silêncio. O rosto escondido no meu peito.
— Por que fez isso? — perguntei, quase num sussurro.
Ela demorou a responder. Talvez nem soubesse como.
— Porque você sempre me viu... mesmo quando eu mesma me perdi.
— Mas... ele... — minha garganta fechou. — Você dormiu com aquele desgraçado.
Ela levantou os olhos. Finalmente me olhou. E aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa. Porque ela me olhou como quem já estava morta por dentro.
— Eu sei que você nunca vai perdoar. E nem precisa. Mas eu precisava... precisava te limpar desse pesadelo.
Toquei o rosto dela. Tão magra. Tão cansada.
— Eu também me sujei, Yasmin. Bebendo. Me odiando. Odiando você. Odiando o mundo. E agora você tá aqui... e eu nem sei se tenho forças pra amar de novo.
— Então não ama. Só me segura. Só por hoje.
E foi isso.
Na calçada, entre carros, buzinas e o mundo girando, nós dois sentados no chão. Chorando. Com medo. Mas juntos.
Porque às vezes amar não é querer. É aguentar. É ficar. Mesmo quando tudo já quebrou.
Capítulo 24 – Um Novo Amanhecer
Por Yasmin
A luz invadia o apartamento devagar, como se pedisse permissão para entrar. Yasmin estava sentada no chão da sala, de costas para o sofá, olhando a xícara de café esfriar.
Havia passado a noite sem dormir. O reencontro com Juan ainda latejava dentro do peito como um corte que a gente sabe que vai virar cicatriz — mas não sabe quanto tempo vai levar pra parar de doer.
Ela pensava em tudo.
Em como chegou tão longe, em como caiu tão fundo, em quantas versões dela mesma morreram para que a mulher que agora estava ali pudesse sobreviver.
Sim, ela tinha dinheiro. Ainda era famosa. Seus álbuns estavam entre os mais vendidos. Mas nada disso parecia importar. Tudo que era brilho agora pesava como correntes.
Ela queria casa. Queria silêncio. Queria o tempo.
Talvez filhos.
Talvez a vida sem holofotes.
Talvez... um amor que não machucasse tanto.
Ela não quis que Juan ficasse com ela depois daquela noite. Não podia. Ele era a lembrança viva daquilo que ela mais queria — e que sentia que não merecia mais.
Não depois de tudo.
— Eu fui até o fim por você, Juan. Mas não sei se posso pedir pra você me amar de novo — sussurrou, sozinha, como quem confessa uma culpa ao vento.
Ela tocou os lábios. Ainda sentia o gosto do beijo dele. E chorou. Pela saudade, pela perda, por tudo que não teve coragem de contar a tempo.
Mas acima de tudo... chorou porque, pela primeira vez, não sabia o que queria da vida.
Só sabia o que não queria mais.
Por Juan
A porta do apartamento de Yasmin se fechou devagar atrás dele. Ele ficou ali, parado, por alguns segundos, com a testa encostada na madeira. Queria bater. Queria voltar. Queria levá-la dali.
Mas não fez nada disso.
Pegou o carro. Voltou pra casa.
Thor correu até ele, pulando, abanando o rabo, sem saber da dor no peito do dono. Juan se jogou no sofá e deixou o cachorro deitar junto.
Olhou ao redor. A casa era linda. Imensa. Tinha piscina, bar, estúdio. Tudo aquilo que um artista podia querer. Mas estava vazia. Gritando.
Ligou a televisão. Mudou de canal. Nada.
Pegou o celular. Pensou em ligar pra ela. Nada.
Passou pela estante, viu seus prêmios, seus discos de platina... e sentiu raiva. De si mesmo. Dela. Da gravadora. De tudo.
— Por que não me contou? — disse, como se ela estivesse ali. — Por que teve que se sujeitar àquilo?
Mas no fundo ele sabia: ela fez o que ninguém mais teria coragem de fazer.
O problema era que isso também doía.
A imagem de Eduardo tocando nela corroía sua alma.
Juan não sabia se podia perdoar. Mas também não sabia se ela precisava do perdão dele ou apenas do próprio.
— Ela é maior que tudo isso — sussurrou, passando a mão nos cabelos. — Forte. Incrível. Suja de sangue... mas ainda assim... linda.
Deitou no chão da sala, ao lado de Thor. Fechou os olhos.
E pela primeira vez em meses, não teve pesadelos. Só o som da voz dela na mente. E uma saudade que queimava.
Capítulo 25 – O Tempo é o Senhor de Todas as Coisas
Por Yasmin
Dois anos.
Dois anos desde que deixei Juan na frente do meu prédio e virei as costas com o coração estilhaçado.
Dois anos desde que a justiça foi feita e desde que meu peito parou de gritar por ele — pelo menos em voz alta.
Mas a verdade é que ele nunca saiu de mim.
Nem um dia sequer.
Me afastei de tudo: da fama, da mídia, das pessoas que me chamavam de estrela.
Vendi tudo, comprei uma casa simples à beira-mar e fui cuidar de mim.
Plantei temperos.
Comecei a escrever num caderno velho.
Aprendi a dormir sem remédios.
Mas nunca aprendi a viver sem lembrar dele.
Juan era o silêncio entre os versos.
A saudade em cada pôr do sol.
O nome que eu não dizia, mas ainda carregava no peito.
Aquela manhã parecia como qualquer outra. Sol forte, feira na praça, cheiro de pão fresco. Eu carregava uma sacola com frutas quando ouvi um latido.
Não era qualquer latido.
Era ele.
Thor.
E então ouvi:
— Yasmin.
Virei devagar, e lá estava ele.
Juan.
A mesma postura.
A barba um pouco maior.
Os olhos… iguais. Reconhecíveis como sempre.
E naquele instante, o tempo parou.
Meu coração acelerou tanto que precisei me abaixar para abraçar Thor, só pra disfarçar o colapso interno.
Quando me levantei, ele estava ainda mais perto.
Por Juan
Dois anos.
Duzentos e quarenta e três músicas escritas.
Oito produzidas.
Nenhuma lançada.
Porque nenhuma delas era sobre outra mulher.
E nenhuma outra mulher era ela.
A verdade é que depois do dia da coletiva, minha vida mudou. Mas não da forma que imaginei.
Eu recuperei meu nome, meu trabalho, minha reputação.
Mas perdi ela.
Fiquei noites imaginando por que ela não me explicou, por que não pediu ajuda, por que foi tão fundo… sozinha.
E ao mesmo tempo, entendi.
Porque ela era Yasmin.
E porque ela me amava tanto, que preferiu se machucar para me proteger.
Arthur me contou onde ela estava meses atrás. Não fui. Não tinha coragem.
Mas hoje, algo me empurrou até aquela cidade. Talvez fosse Thor. Talvez fosse meu próprio coração cansado de esperar.
E quando vi ela saindo da feira, com um vestido claro, cabelo preso e um ar sereno…
Meu mundo parou.
— Yasmin — chamei, com a voz embargada de tudo o que não disse.
Ela me olhou.
E eu vi os dois anos nos olhos dela.
Ela caiu de joelhos e abraçou Thor.
Meu coração foi junto.
Quando ficou de pé, seus olhos estavam cheios d’água, mas ela não disse nada.
— Eu só quero saber se… você ainda sente — perguntei, encarando o medo, a esperança, o amor.
Por Yasmin
Fechei os olhos. Respirei fundo.
Não havia mais nada para esconder.
— Eu nunca deixei de sentir. Só precisei aprender a viver comigo. E você?
Por Juan
Sorri. Pela primeira vez em muito tempo.
— Eu te esperei. E agora tô aqui. Se ainda tiver um espaço…
Por Yasmin
— Eu guardei ele pra você.
Por Juan
A abracei como quem volta pra casa depois de uma guerra.
E ela se encaixou.
Como sempre foi.
Como sempre será.
Ali, em uma rua esquecida pelo tempo, com Thor como testemunha e o mar como trilha sonora, a gente recomeçou.
Não como antes.
Melhores.
Mais fortes.
Mais nossos.
Epílogo – Notas de um Amor Calmo
O sol já tinha se posto quando Thor latiu para o portão.
Era Arthur, com uma caixa de vinhos e um violão nas costas.
As crianças corriam pelo jardim, pés descalços e risos livres, enquanto Yasmin pendurava luzes no quintal para a noite de festa.
Juan estava na cozinha, mexendo no molho do jantar, cantando baixinho uma canção que ele e Yasmin escreveram juntos meses atrás.
Era sobre recomeços. Sobre o que vem depois do caos. Sobre paz.
Ela apareceu na porta, com os cabelos soltos e um olhar que ele conhecia bem.
— Precisa de ajuda, amor?
— Sempre — ele disse, sorrindo.
Ela se aproximou e o beijou na testa.
Naquela casa à beira-mar, sem flashes, sem aplausos, sem manchetes, existia algo que a fama nunca conseguiu dar a eles:
Liberdade.
E ali, entre temperos, música e filhos, o tempo não levava mais nada.
Só deixava.
Deixava amor.
Comentários
Postar um comentário