O Alfa Que Me Rejeitou
Série: Alfas & Instintos
Capítulo 1 — A Cerimônia
(Ayra)
O vento gelado da floresta sussurrava meu nome. Era como se as árvores estivessem tentando me acalmar, mas meu coração não ouvia. Ele só batia — forte, nervoso, confuso.
— Ayra, está pronta? — minha irmã mais velha, Lyana, me perguntou, ajeitando a capa sobre meus ombros.
— Não — respondi, com a voz mais firme do que eu me sentia.
A cerimônia de apresentação de pares destinados era o evento mais aguardado do ano. Para alguns, era o início de uma nova vida. Para mim… era o medo de que tudo mudasse.
Dante Nightfang.
Seu nome já fazia meu corpo reagir. Era como eletricidade correndo sob a pele. O Alfa da matilha vizinha, poderoso, temido, inalcançável. Mas hoje... nossos olhos se encontrariam. E se o vínculo estivesse lá, seria impossível negar.
Entrei no círculo sagrado, com todos da minha matilha em silêncio. Do outro lado, ele surgiu. Alto, imponente, com olhos como uma tempestade prestes a explodir.
Quando nossos olhares se cruzaram, o mundo silenciou.
Meu lobo interior rugiu.
E, por um instante, vi o brilho no olhar dele. Um reconhecimento. Uma conexão.
Mas foi só por um instante.
— Não. — Sua voz ecoou como uma lâmina cortando o ar. — Eu a rejeito.
Senti como se meu peito se partisse ao meio. Uma dor absurda me atingiu, quase me fazendo cair de joelhos.
— Você não pode… — murmurei, ofegante. — Nós sentimos…
— Eu disse não! — ele repetiu, se afastando, sem olhar para trás.
E eu, quebrada, apenas fiquei ali. Vazia.
Capítulo 2 — Rejeição
(Dante)
Minha garganta queimava. Rejeitá-la... foi como cortar minha própria alma.
Mas eu tinha que fazer.
“Ela é fraca”, dizia meu pai. “Uma ômega nunca será aceita como fêmea de um Alfa Nightfang.”
Mas não era fraqueza o que vi nos olhos dela. Era fogo.
Maldição.
Assim que nossos olhos se encontraram, o vínculo se acendeu como um raio dentro de mim. A conexão era real, intensa... visceral.
E mesmo assim, eu a rejeitei.
Por causa da maldita promessa. Do sangue. Da obrigação.
Vi o choque em seu rosto, vi sua alma despedaçada. E mesmo assim, virei as costas. Porque é isso que um Alfa faz. Escolhe a matilha. O dever. Mesmo que isso custe a si mesmo.
Mas ao sair do círculo, algo em mim gritou.
Ela era minha.
E eu a perdi.
Capítulo 3 — Fuga
(Ayra)
A dor não parava. Era uma dor que não se via. Um grito sufocado que ecoava dentro do peito. Cada passo fora do território da matilha era uma escolha entre morrer ou esquecer.
— Você vai fugir? — Lyana me encarou na beira da floresta.
— Eu já fui embora por dentro. Só estou acompanhando meu corpo agora.
Ela não disse nada. Apenas me entregou uma mochila com água, frutas secas e um manto mais grosso.
— Volta viva. E prova pra ele que você é mais do que qualquer lobo já viu.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas não caíram. Eu precisava da dor. Precisava que ela me guiasse.
Entrei na floresta escura. Meu coração aos pedaços. Mas meu instinto… mais forte do que nunca.
Sozinha. Rejeitada. Esquecida.
Ou assim ele pensava.
Mas a floresta guarda segredos. E eu? Eu ia descobrir cada um deles.
Capítulo 4 — A Fera Interior
(Ayra)
As noites na floresta eram silenciosas… até não serem mais.
Eu já havia perdido a noção do tempo. Dias? Semanas? Não sei. Só sabia que meu corpo estava mais forte. Meus sentidos, mais aguçados. Meu lobo... inquieto.
Na terceira lua cheia desde a rejeição, aconteceu.
Eu acordei de madrugada, ofegante, o corpo queimando, os olhos ardendo. Meu lobo rugava dentro de mim, pedindo liberdade.
— O que está acontecendo comigo?
A dor rasgou meu peito. Meu corpo começou a se contorcer, como se algo quisesse sair. Meus ossos se esticaram, a pele latejava... e então eu vi.
Minhas mãos — agora patas.
Me transformei. Sozinha. Sem guia. Sem controle.
Corri. Mais rápido do que jamais imaginei. O cheiro das árvores, o som dos animais, tudo era claro, nítido, vibrante.
Mas minha mente não estava só.
Uma presença me observava.
Parei.
E então o vi.
Um lobo negro. Gigante. Selvagem.
Ele rosnou. Eu também.
E por um instante, nos reconhecemos. Não como inimigos. Mas como... semelhantes.
A floresta me havia aceitado. Agora eu pertencia a ela.
Capítulo 5 — Sangue e Treinamento
(Ayra)
O lobo negro se chamava Kael. Alfa de uma matilha selvagem, afastada dos reinos organizados. Eles não ligavam para hierarquias tradicionais. Ali, o que importava era instinto. Sobrevivência. Força.
— Você sangrou e sobreviveu. Isso é mais do que metade dos lobos da sua geração, garota. — disse ele, ao me ver levantar após mais um treino.
Kael me treinou. Me ensinou a controlar a transformação, a usar meus sentidos, a lutar. E, o mais importante: a nunca mais depender de alguém para me validar.
Ele não perguntava sobre Dante. E eu não falava. Mas todas as noites... eu sonhava com aqueles olhos tempestuosos me rejeitando.
E todas as manhãs, eu me erguia mais forte.
Até que, numa noite chuvosa, Kael me chamou.
— Chegou a hora.
— Hora do quê?
— De você deixar de ser loba ferida e se tornar loba guerreira.
E eu fui. Rumo a uma caçada que provaria meu valor. Não para os outros. Para mim.
Capítulo 6 — A Coroação
(Dante)
O salão estava cheio. Roupas formais. Sorrisos fingidos. Diplomatas de todas as matilhas.
Eu estava prestes a ser coroado Alfa oficial da Nightfang.
E tudo parecia... errado.
— Hoje é o dia, filho — meu pai disse, colocando a mão em meu ombro. — Está preparado?
“Preparado para viver uma mentira?”
— Estou — menti.
A cerimônia seguiu como deveria. Todos ajoelhados. Discursos sobre poder, liderança, legado.
Mas enquanto segurava o anel dos Ancestrais e ouvia os cânticos, senti.
Ela.
Uma presença. Um cheiro. Um calor que me percorreu como fogo líquido.
Mas ela não estava ali. Eu sabia. Não fisicamente.
Meu vínculo com Ayra... ainda existia.
E mais forte do que nunca.
— Você está estranho — comentou Ezra, meu braço direito, após a cerimônia. — Ainda pensando nela?
— Ela sumiu. Como se nunca tivesse existido — respondi.
Mas era mentira. Ela estava em mim. Em cada batida do meu coração.
E algo me dizia… que ela estava voltando.
Capítulo 7 — Cicatrizes e Sussurros
(Ayra)
A floresta nunca foi silenciosa.
Mesmo em paz, ela murmurava. Entre folhas e sombras, eu ouvia. As vozes antigas, os instintos, as marcas que agora carregava não estavam na pele — mas na alma.
Na noite da caçada final, enfrentei uma criatura banida. Um lobo deformado pela dor e pela rejeição. Me vi nele. E quase morri por hesitar.
— Você hesitou porque ainda sente — disse Kael, ao cuidar do meu ferimento. — Isso te faz forte, Ayra. Mas vai te matar se não aprender a usar isso como arma.
Naquela noite, sozinha entre as pedras, encarei a lua.
— Por que ele me rejeitou? — sussurrei, mesmo sabendo que não teria resposta.
Mas a dor... ela respondeu. E me queimou por dentro.
O vínculo ainda existia. Latejava. Chamava por ele.
Mas agora, eu escolhia não responder.
Capítulo 8 — Ecos do Vínculo
(Dante)
— Ela foi vista, Alfa — disse Ezra, entrando sem bater. — Uma patrulha da fronteira encontrou rastros dela em direção ao norte.
Levantei tão rápido que a cadeira caiu.
— Está viva?
— Muito mais do que isso. Disseram que estava com uma nova matilha. Selvagens. Nômades. Treinando.
Senti algo entre raiva e... alívio.
Ela sobreviveu.
Mas não era mais a mesma.
Fechei os olhos. Tentei silenciar o vínculo, mas ele vibrava. Como se a alma dela gritasse a quilômetros de distância.
Naquela noite, sonhei com ela.
Mas não era a Ayra submissa e ferida que eu rejeitei.
Era uma loba de olhos de fogo, que me olhava não com dor... mas com desprezo.
Acordei com o peito em chamas. E soube.
Eu estava perdendo ela. E merecia.
Capítulo 9 — O Encontro
(Ayra)
Kael me enviou em uma missão de reconhecimento. O território... tocava a borda da matilha Nightfang.
— Vai, se quiser. Mas vá como loba, e não como garota com o coração partido — ele disse.
Mas era impossível. Eu não era uma coisa só. Era a soma dos pedaços que sobreviveram.
Na floresta densa, segui o rastro de uma patrulha. Mas o que encontrei não foi qualquer guerreiro.
Foi ele.
Dante.
Parado diante do lago, sozinho, como se esperasse por algo que ele mesmo não compreendia.
Nossos olhos se cruzaram.
E tudo congelou.
— Ayra... — ele sussurrou, com a voz embargada.
— Não diga meu nome como se ainda tivesse esse direito — respondi, firme.
Ele deu um passo. Eu recuei.
— Você me rejeitou, Dante. E eu morri naquele dia.
— Eu me odeio por isso todos os dias desde então.
— Não é suficiente. Palavras não apagam o que você destruiu.
Silêncio.
Mas o vínculo queimava. Vivo. Pulsando entre nós como uma maldição e uma bênção.
— Você ainda sente, não sente? — ele perguntou, num tom baixo, doloroso.
— Sinto. Mas não é mais por você. É por mim. Pelo que me tornei apesar de você.
E então virei as costas. E fui embora.
Mas chorei.
Porque o vínculo... ainda me puxava.
E eu não sabia por quanto tempo mais conseguiria resistir.
Capítulo 10 — A Dor de Estar Perto
(Dante)
Ela tinha mudado.
Não só no olhar. Mas na postura, no cheiro, na aura. Ayra agora era poder bruto. Selvagem. Linda como o caos.
Desde que a vi naquela floresta, algo dentro de mim desmoronou.
Passei noites lutando contra o vínculo que se reacendeu como fogo seco. Mas era inútil. Eu a sentia mesmo quando ela dormia. Sentia o medo dela, a raiva... e a solidão que ela escondia tão bem.
Mandei mensageiros. Ela ignorou todos.
Então fui até a fronteira. Sozinho.
E quando ela apareceu... meu coração parou.
— Por que veio? — ela perguntou, com a voz firme, mas os olhos brilhando.
— Porque o mundo pode me odiar, Ayra. Mas não posso mais fingir que não te amo.
Ela riu. Um riso amargo.
— Agora você ama? Depois de me quebrar?
— Eu errei. E erro todo dia sem você.
Ela se aproximou. Devagar. Cada passo um teste de força.
— E se eu disser que também sinto? Que cada batida do meu coração ainda grita por você?
Eu respirei fundo, tentando conter o lobo em mim, que uivava por ela.
— Então eu digo que ainda há tempo. Se você me permitir consertar o que destruí.
Silêncio.
E por um segundo... ela quase me tocou.
Mas então ela virou o rosto.
— Ainda não. Eu ainda sangro quando penso em você.
Capítulo 11 — Marcas Que Não Curam
(Ayra)
Depois daquele encontro, voltei para o abrigo de Kael... em pedaços.
Minha mente gritava para fugir. Meu corpo queria Dante. E meu lobo? Ele simplesmente chorava.
Não entendo o destino. Por que me amarrar a alguém que me rejeitou? Por que o vínculo não se rompeu de vez?
Kael me olhou de longe. Sabia.
— Vai ter que decidir o que fazer com o que sente. Não dá pra correr de si mesma.
— Eu não quero amá-lo — respondi.
— Não se trata de querer. O vínculo não é racional. Mas a escolha... essa é toda sua.
Naquela noite, fui até o rio.
E deixei as lágrimas caírem pela primeira vez em semanas.
Porque sim, eu o amava.
E isso me assustava mais do que qualquer caçada.
Capítulo 12 — O Primeiro Toque
(Ayra & Dante)
Dois dias depois, Dante cruzou a fronteira.
Sozinho.
Sabia que Kael poderia matá-lo. E ele também.
Mas ele veio mesmo assim.
— Não vim por guerra — disse, com as mãos levantadas. — Vim por você.
Kael me olhou. E por algum motivo, me deixou decidir.
Fui até Dante.
— Isso é loucura — sussurrei.
— Amor geralmente é.
Eu o encarei. Por muito tempo.
E então, como se algo em mim quebrasse... toquei sua mão.
Um choque percorreu nossos corpos.
O vínculo gritou. E em segundos, estávamos nos braços um do outro.
Ele segurou meu rosto como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Me perdoa — ele sussurrou, a voz falha.
— Ainda não. Mas talvez… um dia.
E então… nossos lábios se tocaram.
Não foi apenas um beijo.
Foi como se o universo suspirasse.
Capítulo 13 – Feridas Abertas
(Ayra)
Ficamos ali por horas. Sem trocar uma palavra.
Dante não tentou me tocar, não tentou se explicar de novo. Apenas ficou perto. Como se soubesse que qualquer passo em falso seria a ruína do que ainda existia entre nós.
Quando Kael apareceu, notei a rigidez no corpo do Dante. Como se ainda esperasse ser atacado. Mas Kael apenas disse:
— Temos um problema na fronteira norte.
— Eu vou — respondi de imediato.
Dante se ergueu. — Eu vou com ela.
Kael me olhou. Sabia que eu odiava parecer frágil. Mas mesmo assim, assentiu.
— Só observem. Não se arrisquem.
Enquanto andávamos pela trilha da floresta, a tensão entre nós era outra agora. Quente. Inquieta. Quase... familiar.
— Você sempre foi corajosa — ele disse de repente. — Mas eu nunca soube quanto.
— Não sabia porque não quis ver. E agora... é tarde demais pra elogios, Dante.
O vento soprou entre as folhas. E mesmo ali, no meio do mato, eu podia jurar que algo nos observava.
—
Capítulo 14 – Marca Viva
(Dante)
Ela caminhava à frente, passos firmes, mas eu conseguia ver. O jeito que ela escondia a dor. A dúvida. A mágoa.
Era como se cada batida do meu coração gritasse por ela… e cada centímetro do corpo dela tentasse ignorar.
Mas não era fácil. Nem pra mim, nem pra ela.
Sentimos o cheiro ao mesmo tempo: algo que não era lobo, nem animal conhecido. Algo antigo. Quase podre.
— Sentiu isso? — ela sussurrou.
— Sim. Mas está se movendo rápido. Indo embora.
Ela puxou o colar que sempre usava. Uma pequena pedra de quartzo.
— Esse colar... é da sua mãe? — perguntei.
Ela assentiu.
— Foi o último presente dela. Disse que me protegeria do que não é deste mundo.
Fiquei em silêncio. Porque, por um segundo, desejei que aquele colar tivesse protegido ela de mim.
—
Capítulo 15 – Gritos no Silêncio
(Ayra)
Voltamos à vila antes do pôr do sol, mas aquela sensação não saiu de mim.
Algo havia acordado na floresta. Algo que não era só sobrenatural. Era pessoal.
Kael nos esperava.
— Alguma coisa?
— Cheiro estranho. Quase... como sangue velho misturado com cinzas — respondi.
— Tem aparecido perto de onde os nossos rituais antigos foram enterrados — ele disse, olhando para mim, depois para Dante. — Talvez não seja coincidência.
A noite caiu pesada. Eu tentei dormir, mas os pensamentos me consumiam.
O cheiro dele ainda estava na minha pele. O jeito como ele me olhou hoje... quase me fez esquecer o passado. Quase.
Ouvi passos do lado de fora. Fui até a janela.
Era ele. Sentado no chão, ao lado da minha porta.
Fiquei observando, coração acelerado.
E então ele disse, sem me ver:
— Só me deixa proteger você, Ayra. Mesmo que nunca mais me olhe do mesmo jeito. Só me deixa ficar por perto.
Eu fechei os olhos. E deixei uma lágrima cair.
Quero odiá-lo. Mas meu coração… ainda sabe o nome dele.
Capítulo 16 – Rastros na Névoa
(Ayra)
Acordei com um cheiro estranho no ar. Terra molhada. Folhas queimadas. Sangue.
Corri para fora da cabana. E não fui a única. Dante já estava ali, olhos em alerta.
— Sentiu isso? — sussurrou, como se o som da voz pudesse despertar algo perigoso.
Assenti. — Está vindo da parte proibida da floresta.
Kael chegou logo atrás, e algo no olhar dele me fez gelar por dentro.
— Uma runa antiga foi quebrada. Um dos selos... desapareceu.
— Isso não é possível. Os selos foram enterrados no ritual da união — murmurei.
Kael olhou diretamente para Dante.
— E a última vez que esse selo foi visto... foi no nascimento da filha da bruxa Élana.
Minha respiração travou. — A bruxa Élana... era minha avó.
—
Capítulo 17 – O Que Habita em Mim
(Dante)
A floresta parecia mais escura naquela noite. Não por falta de luz — mas por presença.
Ayra andava ao meu lado, o colar dela brilhava sutilmente. Como se algo quisesse se aproximar... mas não conseguisse.
— Por que nunca me contou sobre sua avó? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Porque ser neta de uma bruxa selada viva não é exatamente algo fácil de explicar, Dante.
Toquei seu braço. Ela não recuou.
— Isso muda tudo.
— Muda? — ela se virou para mim. — Você me rejeitou quando nem sabia quem eu era. Imagina agora?
— Eu rejeitei por medo. Não de você. De mim. Do que eu poderia fazer com você.
Ela piscou devagar. Os olhos marejados. E, então, nossos rostos estavam perto demais.
O mundo ficou em silêncio. Até o sussurro do vento parou.
Ela encostou a testa na minha. E sussurrou:
— Você ainda sente?
— Sinto. Desde o primeiro dia. Só escondi porque era covarde demais.
Nossos lábios se aproximaram...
E então um grito ecoou na floresta.
Algo havia chegado.
—
Capítulo 18 – A Sombra Chamou Meu Nome
(Ayra)
Corremos. O grito veio de perto das ruínas do templo antigo.
Lá, entre as pedras cobertas de musgo e runas quebradas, havia uma marca nova: um símbolo queimado no chão, como se algo tivesse sido invocado.
— É o símbolo da linhagem Élana — sussurrei. — Mas está corrompido...
Dante se colocou à minha frente, instintivamente.
— Vamos sair daqui. Agora.
— Não — eu disse. — Isso é meu. Isso me chamou. Eu ouvi minha mãe. Senti a presença dela. Está ligada a mim.
Ele se virou, desesperado:
— Você vai morrer se insistir nisso. Por favor, Ayra.
— Eu morro se continuar fugindo.
Um rugido cortou a noite. Não era lobo. Não era humano. Era algo... ancestral.
Dante me puxou contra o peito. Seu coração batia tão forte quanto o meu.
— Se for pra enfrentar isso, vai ser comigo. Mas se algo tentar te tocar... eu juro que rasgo o mundo ao meio.
Eu olhei pra ele. A alma dele. E ali, mesmo em meio ao medo, meu corpo cedeu por um segundo.
Encostei os lábios nos dele. Suave. Quase uma promessa.
E foi o bastante para ele me beijar de volta. Feroz, urgente, quebrado.
Mas o chão tremeu.
E a escuridão respondeu.
Capítulo 19 – A Floresta Me Chamou Pelo Nome
(Ayra)
A névoa dançava entre as árvores quando eu voltei sozinha à clareira marcada pelo selo queimado. Dante estava caçando com parte da matilha. Eu precisava desse tempo. Para mim. Para o que despertava dentro de mim.
A cada passo, meu peito pesava como se estivesse carregando o luto de algo que nem vivi. Me ajoelhei diante da marca no chão, fechei os olhos e respirei fundo.
Foi quando ela falou comigo. Uma voz dentro da minha mente, suave como o vento, cortante como gelo.
— O sangue chama o sangue, filha de Élana. Está pronta para saber por que foi marcada?
— Sim — sussurrei. — Quero saber quem eu sou. Por que Dante me rejeitou. E por que essa dor nunca passa.
A floresta respondeu. Imagens invadiram minha mente: uma mulher de cabelos prateados, segurando um bebê. Ao lado dela, um Alfa. Jovem. Furioso. Queimada nas mãos. Medo no olhar.
— Você nasceu da união proibida entre a bruxa e o herdeiro da antiga alcatéia. Eles te esconderam. Mas o pacto não foi esquecido.
— Que pacto?
— O primeiro Alfa da linhagem Dante jurou que se o sangue da bruxa nascesse novamente... ela traria o fim da matilha.
Meu coração parou.
Eu era a maldição que eles tanto temiam.
—
Capítulo 20 – O Preço da Herança
(Dante)
Kael me encarava com olhos duros. Ele sempre me protegeu. Mas agora havia algo diferente nele. Medo?
— Você sabia, não sabia? — perguntei. — Que ela era neta da Élana. Que o colar era o selo. Que minha ligação com ela nunca foi um erro... mas parte de algo maior.
Kael não respondeu. Em vez disso, jogou um caderno velho sobre a mesa.
— Diário do seu pai. O Alfa antes de mim.
Abri com as mãos trêmulas. E li:
"Se o vínculo for verdadeiro, ele será obrigado a escolher. Entre o amor e a lealdade. Se escolher o amor, perderá o trono. Se resistir, manterá a alcatéia... mas matará a metade de sua alma."
A recusa.
Minha recusa a Ayra.
Não foi instinto.
Foi proteção. E covardia.
—
Mais tarde, quando a encontrei na floresta, ela estava ajoelhada, os olhos brilhando como prata.
— Você viu, não viu? — perguntei.
Ela assentiu. — Eu sou o que todos temem.
Me ajoelhei à frente dela. Toquei seu rosto. Ela não recuou. Mas também não sorriu.
— E eu fui o que te quebrou — sussurrei.
— Sim — ela respondeu, com os olhos cheios de lágrimas. — Mas você também é o único que pode me reconstruir.
—
Capítulo 21 – As Sombras Também Amam
(Ayra)
Passamos a noite juntos. Não como amantes, mas como dois pedaços quebrados tentando se encaixar de novo.
Ele me contou tudo. O pacto. O diário. A escolha cruel imposta pelos ancestrais.
— Eles querem que eu escolha entre o trono e você — disse ele. — Mas o que eles não sabem é que eu... já perdi quando te perdi.
Fiquei em silêncio.
No fundo, eu ainda temia. A marca no meu peito queimava. Como se algo estivesse se aproximando.
— A floresta me mostrou mais, Dante. Vi... o selo completo. Ele está dentro de mim. E ele vai se romper.
— Quando?
— Quando eu amar por completo.
Ele parou. Olhou dentro dos meus olhos.
— Então talvez... não seja a hora de fugir disso.
Eu respirei fundo. O medo e o desejo lutando dentro de mim.
E pela primeira vez... eu quis que ele ficasse.
—
Mas antes que eu pudesse responder, os lobos uivaram em alerta.
E a floresta queimou com uma chama verde.
Algo foi liberado.
E vinha atrás de mim.
Capítulo 22 – O Despertar da Fera
(Ayra)
O uivo da matilha cortava a noite, mas eu não ouvia. Sentia o que vinha se mexendo dentro de mim, uma força antiga, sombria, que há muito dormia.
Meus dedos tremiam, minha respiração acelerava. O colar no meu pescoço queimava como se fosse feito de brasas.
— Dante... — chamei, sem saber se ele viria.
Ele apareceu no meio das árvores, olhos brilhando, alerta.
— Está acontecendo — disse, como se entendesse sem mais explicações.
De repente, uma sombra enorme se projetou atrás de nós. Um monstro com olhos vermelhos e garras afiadas. A criatura da floresta, um antigo guardião esquecido, despertou para proteger o segredo — ou para destruir.
Meu corpo se transformou, a pele esticando, os dentes crescendo. Eu não estava mais sozinha. O lobo dentro de mim tomava o controle.
Dante segurou minha mão, firme.
— Juntos — prometeu.
—
Capítulo 23 – O Ataque da Escuridão
(Dante)
Nunca vi a floresta tão viva e perigosa. A criatura avançava com fúria, mas Ayra era diferente agora. Ela lutava como uma Alfa, selvagem, imponente.
— Cuidado! — gritei quando a fera abriu suas garras em direção a ela.
Ela se desviou, saltou e atacou, cada movimento carregado de força e graça sobrenatural.
No meio do confronto, consegui sentir algo — uma conexão profunda, uma ligação que ia além do físico.
Era amor, não apenas instinto.
Ela se virou para mim, olhos cheios de fogo e determinação.
— Não vou fugir mais, Dante.
E naquela hora, entendi que lutaríamos juntos — não só contra a fera, mas contra tudo que tentasse nos separar.
—
Capítulo 24 – O Beijo Que Quebra Correntes
(Ayra & Dante)
Quando a criatura finalmente caiu, o silêncio tomou conta da floresta.
Exaustos, nos olhamos.
Foi então que ele se aproximou, devagar, inseguro, como se temesse que eu fosse fugir.
— Ayra... — ele sussurrou.
Não pensei.
Me lancei nos seus braços, o mundo desabando ao redor, enquanto nossos lábios se encontravam em um beijo desesperado e arrebatador.
Foi o beijo da redenção, do perdão, da promessa de que, apesar de tudo, poderíamos desafiar o destino.
Minha alma vibrou, e o colar no meu pescoço brilhou com uma luz quente.
— Estamos ligados — disse ele contra meus lábios.
— Para sempre — respondi.
Mas, mesmo em meio à paixão, uma sombra sussurrou em meus ouvidos.
— A guerra está só começando.
Capítulo 25 – O Preço do Poder
(Dante)
Depois da batalha, a matilha estava dividida. Alguns ainda olhavam para Ayra com desconfiança, temendo a maldição.
Mas eu sabia a verdade.
Ela não era uma maldição — era a chave para o futuro.
Na assembleia, olhei para todos e falei:
— Ayra é minha parceira. Juntos, vamos proteger a matilha e a floresta.
Houve murmúrios, mas a força no meu olhar calou as dúvidas.
No silêncio da noite, fui até Ayra.
— O que você quer? — perguntei.
Ela sorriu, cansada, mas firme.
— Quero você. Quero nossa verdade. Quero nossa matilha.
—
Capítulo 26 – O Novo Começo
(Ayra)
Dante me guiou até o topo da colina, onde a lua cheia iluminava tudo com seu brilho prateado.
— Está pronta? — ele perguntou.
Assenti.
Ele colocou a mão sobre meu coração, e eu senti a energia pulsar, como se estivéssemos ligados por um fio invisível, forte e eterno.
— Vamos reconstruir. Não importa o passado, nem as rejeições.
— Juntos.
E naquela noite, não éramos apenas Alfa e bruxa, nem líder e herdeira.
Éramos duas almas que se encontraram no meio da escuridão e decidiram brilhar.
—
Capítulo 27 – A Promessa Eterna
(Ayra & Dante)
Nosso beijo selou não apenas a aliança, mas uma promessa.
— Eu não vou te abandonar — disse ele, olhando nos meus olhos.
— Nem eu a você — respondi, sentindo o amor que crescia como fogo.
A floresta parecia sorrir, o vento trazendo uma canção antiga, de esperança e renascimento.
Sabíamos que desafios ainda viriam, que batalhas nos aguardavam.
Mas ali, sob a luz da lua, com as estrelas como testemunhas, decidimos que nosso destino seria escrito por nós.
E que nenhum Alfa jamais me rejeitaria de novo.
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