Capítulo 1 – O Começo das Coisas Estranhas
por Lia.
Eu hein. Nunca tive medo de morar sozinha.
Aliás, sempre achei que era um privilégio. Abrir a geladeira sem explicação, dormir no sofá sem
culpa, cantar alto no banho sem plateia — tudo isso era minha definição de liberdade.
Mas tem uma coisa que começou a me incomodar...
Na verdade, começou bem depois que me mudei pro apartamento 405.
É uma luz.
Na janela 13 do prédio da frente.
Parece bobo, eu sei. Mas deixa eu explicar.
Toda noite, às 3h17 da manhã, a luz acende. Sempre no mesmo horário. Sempre na mesma janela.
E não é aquela coisa de “alguém esqueceu a lâmpada ligada”.
É como se alguém acendesse só pra me lembrar que tem alguém acordado… ou me observando.
No primeiro dia, achei coincidência. No segundo, comecei a desconfiar.
No quinto dia, passei a esperar.
A pior parte é que ninguém parece morar lá.
Juro. Eu trabalho de casa, tô sempre em frente ao computador, a janela é a minha vista principal. E
eu nunca vi uma movimentação no 1303.
Só a luz.
E uma sombra.
Uma vez — e olha, pode ter sido coisa da minha cabeça —, eu vi uma silhueta parada atrás da cortina.
Reta. Fixa.
Como se estivesse... olhando.
Ontem foi diferente.
Quando a luz da janela 13 acendeu, a campainha da minha porta tocou.
Às 3h19 da manhã.
Eu não fui atender.
Travei. Congelei.
Fiquei só escutando meu coração bater no ouvido.
Hoje cedo, a síndica comentou que o apartamento ao lado — o 406 — tinha sido alugado. Finalmente.
“Um rapaz tranquilo”, ela disse.
Mas não falou o nome dele. Nem se ele se mudou de fato.
Seja lá quem for…
Ontem, eu ouvi passos no corredor depois da campainha tocar.
E juro: não era impressão minha.
A luz da janela 13 continua acendendo.
E pela primeira vez… eu acho que ela não tá me mostrando o que tem lá fora.
Ela tá me avisando.
Capítulo 2 – O Vizinho e a Voz Grave
por Lia
Acordei com o som da furadeira.
Era cedo demais pra ser um domingo e tarde demais pra eu ignorar.
Olhei no relógio: 10h12.
Levantei meio zumbi, enrolei o cabelo num coque desajeitado e fui direto pro café.
Enquanto a cafeteira fazia seu barulhinho reconfortante, olhei pela janela, quase no automático.
A luz da janela 13 estava apagada.
Mas ainda parecia... viva.
Como se tivesse deixado uma sombra dentro de mim.
Lembrei da campainha.
Da madrugada anterior.
Dos passos no corredor.
Será que foi o vizinho novo?
Resolvi fazer o que toda pessoa sã faria:
Espiei pelo olho mágico.
A porta do 406 estava entreaberta.
Uma música instrumental tocava baixinho.
E então eu vi — por meio segundo — uma silhueta passando por dentro.
Alto. Camiseta escura.
Descalço.
Ele parou. Como se tivesse sentido que eu estava ali.
“Bom dia.”
A voz veio grave. Natural.
“Desculpa o barulho. Tô montando uma estante.”
Senti o rosto queimar.
“Ah! Imagina... bom dia também. Tudo certo!”
Respondi como se fosse uma adolescente flagrada espiando o crush.
Ele sorriu — mesmo eu não vendo o rosto inteiro, eu senti.
E fechou a porta devagar, como quem respeita o silêncio, mas não quer ir embora.
Passei o resto da manhã pensando na estante.
Na voz dele.
E na luz da janela 13.
Tudo parecia conectado.
Ou talvez fosse só minha mente querendo encaixar as peças que faltavam na minha vida.
Naquela noite, fui dormir mais tarde.
Fiquei lendo. Criando teorias.
Até que olhei o relógio: 3h14.
Fechei o livro. Respirei fundo.
Olhei pra janela.
A luz da janela 13 acendeu.
Como sempre.
Mas dessa vez...
a luz do corredor também acendeu.
Levantei devagar, com o coração disparado.
Olhei pela fresta da porta.
E ali estava ele.
Meu vizinho. Parado, olhando para a porta da frente. A minha.
Ele também estava esperando a campainha tocar.
Capítulo 3 – O Bilhete na Porta
por Lia
Ele estava lá.
Parado no corredor, de frente pra minha porta.
A luz do teto o deixava meio em silhueta, como se tivesse saído de um sonho — ou de um filme de
suspense.
Me escondi um pouco mais atrás da porta, segurando a respiração como quem assiste o final de um
episódio e não quer perder nada.
Ele não tocou a campainha.
Apenas ficou parado… por uns segundos.
E então, abaixou algo no chão, olhou pra porta mais uma vez e voltou calmamente pro apartamento 406.
Esperei o silêncio absoluto antes de abrir.
No chão, havia um bilhete.
Um papel dobrado com uma letra inclinada e firme.
“Você também vê a luz da janela 13, né?”
— A.
Fechei a porta devagar.
Senti uma mistura de alívio e pânico.
Então não era só coisa da minha cabeça.
Ele via também.
E ele queria falar sobre isso.
Deitei na cama com o bilhete nas mãos.
Ali estava: a prova de que alguma coisa estranha estava mesmo acontecendo.
E, de algum jeito, meu vizinho estava envolvido.
Ou talvez estivesse tentando me proteger.
No dia seguinte, encontrei ele no elevador.
“Oi”, eu disse.
“Oi”, ele respondeu com aquele meio sorriso torto, como quem carrega muitos pensamentos e só deixa escapar um.
“Sobre o bilhete...” comecei.
Ele me olhou sério.
“Não é a primeira vez que isso acontece.”
“Isso o quê?”
“A luz. A janela 13. Já aconteceu antes. Com outra pessoa.”
Fiquei gelada.
“Outra pessoa que morava aqui?”
Ele assentiu.
“Ela sumiu. Ninguém fala sobre isso. Mas eu lembro.”
O elevador parou no térreo.
A porta abriu.
Mas ninguém entrou.
Ele me olhou como se estivesse decidindo se podia confiar em mim.
“Quer tomar um café? Posso contar o que sei.”
Capítulo 4 – A Primeira a Desaparecer
por Lia
Eu não deveria ter ido.
Era domingo.
Estava chovendo.
E eu mal conhecia o cara.
Mas havia algo na forma como ele falou “outra pessoa” que não me deixava em paz.
A porta do 406 se abriu com aquele som suave de fechadura antiga.
A sala estava arrumada, mas cheia de caixas abertas, como se ele tivesse se mudado apenas por fora.
“Desculpa a bagunça. Ainda não organizei tudo.”
Ele disse, andando descalço pelo piso gelado.
“Pode sentar. Café ou chá?”
“Chá, se tiver. Mas forte.”
A gente sentou no sofá. Ele trouxe duas canecas fumegantes e um caderno velho.
De couro, com o nome “Clara M.” rabiscado na capa com caneta preta.
“Ela morava aqui antes de você. Era jornalista.”
Eu franzi a testa.
“Não me falaram nada disso quando aluguei o apê.”
Ele riu, sem humor.
“Claro que não falaram.”
Abriu o caderno. Algumas páginas tinham recortes de jornal colados, outras anotações à mão.
'Sempre à 1h13 da manhã. Sempre o mesmo vulto. A mesma sombra. A mesma luz acesa. Como um ciclo que se repete sem fim.'
A letra era bonita, mas apressada.
Dava pra sentir o medo entre as linhas.
“Ela sumiu numa madrugada de terça. O porteiro disse que ela saiu de pijama, desceu as escadas e
nunca mais voltou. Câmeras desligadas. Sem sinais de arrombamento. Nada.”
Ele me olhou. “E o mais louco: a luz da janela 13 estava acesa quando ela saiu.”
Engoli seco.
“Você a conhecia?”
“Ela era minha prima.”
Silêncio.
E então, ele soltou:
“Antes de desaparecer, ela deixou esse caderno escondido no fundo do armário do meu quarto na casa
da minha avó. Como se soubesse que um dia eu precisaria dele.”
Fiquei em choque.
Era real demais pra ser coincidência.
E pessoal demais pra ser só uma curiosidade de vizinho.
“Por que você se mudou pra cá?”, perguntei, num sussurro.
Ele me olhou firme.
“Pra descobrir o que aconteceu. E porque... eu achei que você podia me ajudar.”
Capítulo 5 – O Recado de Clara
por Lia
Ainda lembro do cheiro do chá — hortelã com medo.
A. folheava o caderno, como se esperasse algo saltar daquelas páginas.
E eu? Bom, eu já tinha ultrapassado a fase da dúvida. Agora só queria saber a verdade.
Ele parou numa página dobrada, que parecia colada nas bordas.
Descolou com cuidado. Era quase como se Clara tivesse lacrado aquilo por segurança.
Havia uma carta ali dentro.
Escrita à mão. Endereçada a alguém.
Mas sem nome.
“Se você está lendo isso…
então a janela 13 escolheu você.
Não olhe direto pra luz.
Não acredite na primeira versão da história.
E, principalmente…
Nunca entre sozinha.”
Fiquei gelada.
Era um aviso.
Não, era mais do que isso. Era um pedido de socorro, travestido de profecia.
“Ela sabia que ia acontecer de novo”, eu disse, fechando a carta com cuidado.
A. me olhou sério.
“E você sabe o que tem na sala 13?”
Ele hesitou.
“Dizem que foi lacrada depois de um incêndio, anos atrás. Mas ninguém sabe ao certo. A janela ainda funciona. A luz ainda acende.”
“E a sombra?”
“Continua lá. Toda madrugada.”
Saí do apartamento dele com o caderno nos braços como se fosse um artefato mágico.
A noite caiu rápido. A rua parecia mais escura que o normal.
E às 1h13, como se fosse um ritual, lá estava ela de novo: a luz acesa, e a sombra parada diante da janela.
Capítulo 6 – O Barulho Atrás da Parede
por Lia
Acordei com um som oco atrás da minha cama.
Três batidas.
Pausadas.
Como se alguém estivesse tentando chamar — do outro lado da parede.
Levantei sem pensar. O corredor estava frio, a luz fraca.
E a janela 13… acesa. Sempre acesa.
Peguei o caderno de Clara e folheei até encontrar um esboço do meu andar, feito à mão.
Ali, marcado em vermelho, o que ela chamou de “parede falsa”.
Liguei pro A.
“Preciso que você venha aqui. Agora.”
Minutos depois, ele entrou no meu apartamento com uma lanterna e um pé-de-cabra.
Veio sem perguntar por quê. Só com aquele olhar decidido que me fazia sentir… segura.
“Fica atrás da estante”, eu disse, apontando.
A. tirou tudo com força e começou a bater na parede até encontrar um som diferente.
Ele parou.
Me olhou.
“Tem algo aqui. Quer ver mesmo?”
Assenti.
E naquele instante, entre poeira, cimento e escuridão, ele pegou minha mão.
“Se tiver alguma coisa lá dentro… você fica atrás de mim.”
Aquele gesto — simples, direto — fez meu estômago revirar.
Era proteção, mas também desejo.
E eu não estava mais fingindo que não sentia.
Capítulo 7 – O Espelho da Sala 13
Dentro da parede, encontramos um espaço estreito. Um tipo de passagem esquecida, com cheiro de tempo.
Lá no fundo, uma porta de madeira vermelha. Com o número 13 quase apagado.
A chave? Estava dentro de um envelope grudado no verso da porta.
Com uma frase escrita à mão:
“A verdade se revela no reflexo.”
Entramos juntos.
Dentro da sala 13 havia um espelho antigo, imenso, com moldura dourada e rachadura no centro.
A luz acendeu sozinha.
E a sombra apareceu… dentro do espelho.
Ela nos encarava. Mas só a mim.
De repente, A. me puxou para trás, pressionando meu corpo contra o dele, como se dissesse eu te
protejo do que for — sem dizer uma palavra.
Senti a respiração dele no meu pescoço.
O toque firme.
E ali, com o coração disparado, eu soube: aquilo tudo tinha nos escolhido.
Não era só Clara.
Não era só a janela.
Era a gente.
Capítulo 8 – Quando o Passado Chama
A carta seguinte no caderno de Clara era endereçada… à minha avó.
“Você que me avisou sobre a janela. Você que sobreviveu à sala 13. Você sabia. Por que nunca contou?”
A verdade desmoronava como a parede falsa.
Minha avó havia morado ali. Havia passado por tudo antes.
E nunca disse nada.
Foi quando liguei pra ela, com as mãos tremendo.
“Você também viu a sombra?”
Silêncio.
“Lia... a sombra só aparece pra quem foi escolhido. E você foi.”
A. chegou pouco depois, molhado da chuva.
Sem dizer nada, me puxou pela cintura e colou sua testa na minha.
“Se você for, eu vou junto. Não me importa o que tenha lá.”
Eu sorri. Pela primeira vez em dias.
“Tá com medo?”, sussurrei.
“De perder você.”
E então ele me beijou.
Forte, profundo, como se o mundo fosse acabar naquela noite.
Como se nossos corpos estivessem em guerra com tudo — menos um com o outro.
Capítulo 9 – A Última Noite
Entramos na sala 13 à 1h13.
A sombra nos esperava.
Mas não atacou. Não se mexeu.
No espelho, vi Clara. Vi minha avó. Vi outras mulheres que passaram por ali.
E então entendi — a luz da janela não era uma maldição.
Era um aviso.
Um ciclo.
E eu… era o fim dele.
A. ficou ao meu lado o tempo todo.
Segurou minha mão como se ela fosse a única coisa real no mundo.
E juntos, enfrentamos a sombra.
Quando tudo terminou, o espelho quebrou.
E a luz da janela 13… apagou pela primeira vez.
Epílogo – Luzes Acesas
Três meses depois, ainda moramos no mesmo prédio.
O apartamento ficou mais claro.
A sombra nunca mais voltou.
A janela 13? Continua ali, mas agora só reflete o pôr do sol.
Às vezes, A. me puxa pela cintura na cozinha, só pra dizer baixinho:
“Você me salvou.”
E eu rio, encostando meu rosto no peito dele:
“Foi você que me achou.”
E toda noite, antes de dormir, ele segura minha mão.
E me beija.
Como se ainda houvesse algo a proteger.
E eu deixo. Porque agora…
é amor.
Amei a história, divertida e romântica
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